Foco Mashratan

Na busca de pistas no deserto mundo do ditador coronel Kerkum

CICLO Mordred

 

13

FOCO MASHRATAN

POR

NILS HIRSELAND

 

IMAGEM DA CAPA

LOTHAR BAUER

Título Original:

Brennpunkt Mashratan

 

Tradução:

Cleber Zeferino

 

Revisão:

Márcio Inácio Silva

Alessandro Rocha Louredo
Marcel Vilela de Lima

Marcos Roberto

 

Formatação final para liberação no Projeto Traduções:

Márcio Inácio Silva

 

Capa em português

Manuel de Luques

 

Conversão para os formatos ePub, PDF e Mobi:

José Antonio

Publicação não comercial

O projeto Dorgon – ciclo Mordred – é uma publicação não comercial feita por fãs do Centro de fãs do PERRY RHODAN e. V., Rastatt (Tribunal Distrital de Mannheim, VR 520740) e representada por Nils Hirseland, Redder 15, 23730 Sierksdorf. Esta fanfic foi escrita por fãs para fãs da série PERRY RHODAN.

 

A tradução para o Português do Brasil é feita com autorização de Nils Hirseland.

 

Perry Rhodan®, Atlan®, Icho Tolot®, Reginald Bull® e Gucky ® são marcas registradas

Verlagsunion Erich Pabel – Arthur Moewig KG (VPM KG), Rastatt, Germany,

Star Sistemas e Projetos Gráficos Ltda., Belo Horizonte, Brasil

 

www.projtrad.org/dorgon

dorgon@projtrad.org

  1. O que aconteceu até agora 

 

Em outubro de 1290 NCG, ataques terroristas agitam a Galáxia. A organização separatista autoproclamada Mordred declara guerra contra os imortais da organização Camelot e destrói os escritórios com severa brutalidade em Olimpo, Plofos, Gatas, Zalit e Imart.

Homer G. Adams enfrenta um inimigo que conhece as fraquezas de Camelot, já que Cauthon Despair, o Cavaleiro Prateado, já foi uma vez um camelotiano e busca vingança, por culpar pessoalmente Perry Rhodan pelo seu triste destino.

Os camelotianos – e também a LTL – não ficaram inativos. Uma pista pode levá-los a um mundo inóspito e deserto. Como anos antes, é o galáctico FOCO MASHRATAN…

 

Personagens principais deste episódio:

Cauthon Despair – O Cavaleiro Prateado busca vingança

Wyll Nordment e Rosan Orbanashol-Nordment – Eles fazem uma busca em Mashratan

Aurec – O saggittonense oferece ajuda

Coronel Ibrahim el Kerkum – O governante de Mashratan

Xavier Jeamour – Comandante da IVANHOE

Lorif, Irwan Dove, Mathew Wallace e James Fraces – Eles são determinantes em Mashratan

Henry “Flak” Portland – Comandante da espaçonave da LTL CAROLINA DO NORTE

Argon Tan Lasal e Dennis Harder – Eles fazem um jogo obscuro

Wirsal Cell – O antigo mentor de Cauthon Despair está de volta à ativa

 

1.

A partir das crônicas de Jaaron jargon

Outubro de 1290 NCG

 

A situação na organização dos imortais de Camelot estava tensa. Apesar de não ter havido mais ataques contra os camelotianos após Plofos, todos sabiam que essa tranquilidade era enganosa. Provavelmente, este era apenas um cálculo tático da Mordred. Depois dos ataques a Olimpo e Plofos, o próximo ataque era aguardado a cada minuto, medo e insegurança prevaleciam entre os agentes e funcionários da organização.

Mas e se esse atraso no ataque fosse para causar descuido entre os membros? Talvez Mordred, então, atacaria quando menos se esperasse?

Eu mesmo talvez estivesse em perigo, porque estava em contato frequente com Homer G. Adams. Ironicamente, minha pequena casa modesta perto de Siena, na Itália, deveria servir como um local de conferência para uma reunião entre o chanceler saggittonense Aurec e Homer G. Adams, junto com a primeira terrana, Paola Daschmagan, e o comissário da LTL, Cistolo Khan.

Aurec tinha insistido nesta reunião e Homer tinha sugerido o local, para evitar a atenção da mídia. Havia sido determinada a data de 15 de outubro. Desde então, vários agentes do SLT já estavam patrulhando em torno, o que provavelmente deveria sublinhar a importância atribuída pela liderança da LTL à reunião. Esta medida foi ainda mais notável porque grande parte dos membros do SLT tinha desaparecido junto com seu chefe, na Torre correspondente do Baluarte Heliotiano. Entre os agentes que deveriam garantir a segurança da conferência, estava Stewart Landry, um velho conhecido. Além disso, eu havia notado uma beleza de olhos verdes, chamada Sanna Breen. Ela explicou que era a assistente pessoal do comissário da LTL, que sorte...

Então eu me preparei para minha modesta contribuição, sendo um prazer também finalmente conhecer o famoso Aurec.

 

2.

IVANHOE

 

— Bom dia, querida — sussurrou Wyll Nordment no ouvido de sua esposa, que ainda estava meio adormecida. Ele se aconchegou a ela, que reagiu primeiro com um bocejo saudável. Quando Rosan finalmente voltou a si, olhou Wyll com seus olhos vermelho-rubi e deu um sorriso.

— Bom dia.

Rosan se recostou. Nordment se levantou com relutância. Seria muito melhor se pudesse ficar abraçado com Rosan, até que ela fosse novamente levada para terra dos sonhos. Mas, minutos antes, o intercomunicador de Xavier Jeamour, o comandante da IVANHOE, tinha deixado bem claro que ele tinha uma reunião agendada em poucos minutos.

Wyll informou Rosan, mostrando pouco entusiasmo.

— São 05h40min. Então, o homem nunca dorme?

Wyll encolheu os ombros quando entrou no banheiro para, pelo menos, tomar um banho de gato. A campainha da porta soou. Rosan soltou uma espécie de — Grr — e saiu audivelmente da cama. Wyll deixou-se secar pelo sistema de jato de ar quente.

— Quem é? — ele chamou interrogativamente.

— Ah, aí está você senhor? — sua esposa mostrou uma impressão cansada. — Bem, eu tomei a liberdade de lhe apresentar os materiais da reunião. Você tem 11 minutos para estudá-los.

Wyll não acreditou nisso. Ele ficou parado no banheiro, como Deus o criou, mirando o — tolamente próximo — metálico pos-bi cinza, com grandes olhos de pires vermelhos, que queria lhe entregar um cristal de dados.

Rosan caminhou sorrindo para o banheiro.

— Lorif parece não sentir vergonha...

— Oh, estou bem ciente de que o sr. Nordment está nu, sra. Orbanashol-Nordment. No entanto, não posso mostrar nenhuma vergonha, porque eu sou um robô do Mundo dos Cem Sóis com adição de plasma. Como não sou um ser humano, não vou sentir embaraço, excitação sexual ou constrangimento com o fato de que o sr. Nordment estar nu na minha frente.

Wyll agora tinha vestido um roupão de banho e deixado o banheiro.

— Saiam daqui — disse Rosan seriamente. — Isto aplica-se aos dois. Eu prefiro a minha privacidade.

— É claro, sra. Rosan! Além disso, você pode conectar o cristal na interface da célula higiênica. Assim, você pode estudar os tópicos da próxima reunião durante o processo de limpeza física. Penso que esta é uma abordagem muito eficaz — Lorif continuou.

— Devemos fazer o que minha esposa deseja, caso contrário, ela ficará mal-humorada — disse Wyll.

Lorif pareceu entender e seguiu Nordment quando saiu do banho. Wyll fechou a porta, então agora Rosan ficou imperturbável para realizar o seu “processo de limpeza”, como descreveu o segundo-oficial da IVANHOE.

Lorif era o oficial de ciências a bordo da IVANHOE, mas também era satisfatório como navegador e servente. Ele foi um presente dos pos-bis para a organização dos Imortais. Porém, ele era muito falador e excêntrico, coisa das quais Wyll se convenceu extensivamente.

 

*

 

Com dez minutos de atraso, Wyll Nordment e Rosan Orbanashol-Nordment chegaram à reunião na sala de conferência próxima ao centro de comando, no coração da nave de mil metros de diâmetro IVANHOE. Primeiro Nordment viu o olhar de reprovação do comandante Xavier Jeamour.

O magro terrano, com poucos cabelos, sentado na sua cadeira, não disse nada. Jeamour nascera em Liége na Bélgica e era um antigo membro da frota da LTL. Mas, depois de ter caído com o comando da frota, ele mudou-se em 1279 NCG para Camelot, tendo sido por muito tempo comandante da FREYJA.

Para Wyll e Rosan, a FREYJA era uma espaçonave muito especial, porque tinham sido salvos, há quase cinco anos, dos destroços da LONDON.

— Com licença, caro Xavier Jeamour. Eu sou uma nobre arcônida. Não acordamos tão cedo — Rosan tentou se desculpar diplomaticamente.

Jeamour tossiu e levantou-se, ajeitando o uniforme.

— Bom dia e desculpas aceitas. Como nós completamos a pesquisa em torno de Mashratan, agora é hora de procurar ativamente no planeta — disse Jeamour.

Rosan e Wyll pegaram um bule de café e se serviram. Nordment também saudou os outros participantes da reunião. Além de Jeamour e o falador Lorif, também estavam presentes o primeiro-oficial James Fraces, um barbudo veterano da Irlanda; o chefe de segurança Irwan Dove, um poderoso oxtornense; o chefe das máquinas, o juelziishiano Zyrak Wygal; e o comandante dos space-jets, Mathew Wallace.

Seria a primeira missão da IVANHOE. Nos últimos dias, vários testes foram realizados com o couraçado de 1.000 metros de diâmetro, embora os equipamentos ainda não tivessem sido concluídos. Especialmente a falta dos cruzadores transportadores e das corvetas desaparecidas, que tinham sofrido um atraso de entrega, significavam um sério enfraquecimento do poder de combate. A tripulação teve que improvisar. Porém, eles realmente não tinham muito tempo. Devia haver uma ligação entre Mashratan e a Mordred, uma missão de combate não era impossível. Mas Jeamour, Wyll e Rosan queriam evitar isso. Por isso, estavam planejando uma operação secreta no mundo deserto.

Xavier Jeamour deu a palavra a seu terceiro-oficial, o oxtornense careca e poderoso, de pele castanho-clara, chamado Irwan Dove.

Irwan Dove era descendente do lendário especialista Hanseático Stallion Dove. Ele passou sua juventude na colônia oxtornense Taulus, onde havia completado uma formação completa como engenheiro de sistemas de armas. Alguns anos mais tarde, voltou a Oxtorne e se casou. As condições anárquicas no seu planeta natal tinham facilitado para a LTL recrutar o talentoso oxtornense para o serviço da Liga.

Sua esposa não havia lidado bem com a mudança para a Terra, o que, em 1265 NCG, levou ao divórcio. Em seu retorno a Oxtorne, a espaçonave havia sido atacada e destruída por adversários desconhecidos. E não só ela, mas o filho de Irwan, também foi morto. Irwan se culpava por sua morte e, em 1266 NCG, se demitiu do serviço da Liga. Por um tempo, ele ficou sem rumo, à deriva, de um planeta para outro e, finalmente, encontrou um novo papel na visão de Camelot. Em 1280 NCG, ele se juntou à organização dos imortais.

O simpático oxtornense saudou os presentes com sua voz sonora. Então Dove começou a falar sobre a situação atual da Mashratan.

— Em Mashratan, o coronel Kerkum e os sacerdotes de Vhrato governam com mão de ferro. Os direitos fundamentais da população são muito arcaicos. Depois de sete anos de sanções e restrições à importação e exportação, a fome e a pobreza se tornaram generalizadas. Apesar de inspeções regulares, Kerkum tem um poderoso exército e unidades de policiais militares treinados. Existem também os guardas paramilitares dos sacerdotes de Vhrato. No tocante a uma frota espacial, Kerkum já não possui mais nada. Por decisão em 1284 NCG, Mashratan teve que desarmar sua frota espacial e desmilitarizá-la — disse o oxtornense.

— A maior ameaça então à IVANHOE serão, no máximo, as fortes defesas aéreas em órbita ou a defesa armada do próprio planeta — concluiu o primeiro-oficial James Fraces.

Jeamour assentiu.

— Não tenho a intenção de levar a IVANHOE para órbita de Mashratan. Em vez disso, manteremos posição no sistema interno do planeta e estabeleceremos uma equipe visitante em Mashratan.

Jeamour explicou que, em hipótese alguma, queria provocar um conflito. Nordment sabia que o comandante tinha razão. Os mashratanos não eram bons em falar com a LTL ou outros galácticos. As sanções de Kerkum eram em grande parte apoiadas pela população, especialmente depois que o santo Vhrasha começou apoiá-lo. Mesmo que os mashratanos se rebelassem contra seus déspotas, isso nunca aconteceria contra a vontade dos líderes religiosos, pois a população era profundamente religiosa. A adoração do Deus Trino e a observância das regras do livro sagrado Vhrashiator era seu principal objetivo na vida. A religião em Mashratan uniu-se ao culto de Vhrato dos arcônidas e aconenses, Cristianismo, Islamismo e Judaísmo da Terra. A base nessa teologia, que todos tinham o mesmo Deus e de que os profetas eram todos filhos de Deus, o próximo Messias seria, consequentemente, Vhrato.

No entanto, diferenças enormes prevaleciam, como tantas vezes, entre os ensinamentos religiosos e a realidade social. Os mashratanos viviam sob leis religiosas muito rígidas e antigas. Em particular, os direitos das mulheres eram mal amparados. Havia galácticos que condenaram este tratamento, outros eram a favor de uma maior tolerância dos costumes e da cultura de Mashratan.

Para Rosan era uma bandeira vermelha esta tolerância comparada com o sistema autocrático e clerical do autoproclamado “coronel”. Quinze anos antes, ela havia sido sequestrada em companhia de Cauthon Despair em Mashratan por desconhecidos e levada para uma escola Tuffa-Jab-Jab. Tais “escolas” ensinavam as crianças oficialmente uma “Dança” que, em última análise, significava nada mais que acabar com a personalidade da criança para atribuir-lhes depois como “carne fresca” aos desejos de pervertidos ricos dos círculos dominantes.

Gucky deixou o proprietário da escola exposto no deserto. Até então, Rosan não tinha nenhuma compreensão dos costumes arcaicos dos mashratanos. Além disso, a família tirânica dos Kerkum era desonesta e corrupta por completo. A moral da população feral não era muito alta. Apesar de tudo, certamente não era um mundo onde faria seus planos de férias.

— Na capital Vhrataalis o Galacticum construiu uma grande embaixada, onde terranos, ertrusianos, aconenses, mehandors e arcônidas poderiam monitorar as conformidades das resoluções do embargo. Segundo a lei religiosa, como está escrita no chamado “livro sagrado do Vhrashium”, qualquer não humanoide é proibido de entrar no planeta — o pos-bi Lorif mais adiante explicou: — Alguns anos atrás, houve um incidente grave, com uma comissão de juelziishs, unitros e cheborparnenses, montada pelo Galacticum. A consequência foi que a multidão religiosa expulsou literalmente os extraterrestres do planeta.

— Que paraíso hospitaleiro — Mathew Wallace disse cinicamente.

— Por esta razão, só humanos podem participar da missão — disse Jeamour e fixou os olhos no blue Zyrak Wygal, e esse acenou casualmente com uma de suas seis mãos.

— De qualquer maneira, tenho muito o que fazer na casa de máquinas. Já que prefiro passar despercebido com uma bela garrafa de leite e fazer mais testes na fábrica.

Todos na sala de conferência tiveram de sorrir, pois sabiam que o leite para os blues tinha o mesmo efeito que o álcool para os humanos. Jeamour não tinha nenhuma objeção, pois o comandante sabia que seu chefe de máquinas não exageraria. Wygal era um gatasense excêntrico, mas era confiável. Ele era um gênio técnico e tinha uma compreensão quase intuitiva de todo o tipo de tecnologia.

— Nós permaneceremos entre o planeta Mashritun-IV e Mashratan. Os inspetores do Galacticum em Mashratan estão informados. Enviaremos um space-jet para lá. Oficialmente, é para uma nova comissão de controle — Jeamour resumiu.

O servo robô lhe trouxe uma xícara de chá quente. Jeamour, coçando suas narinas, olhou em volta.

— Os srs. Wallace, Dove, Lorif e Nordment formarão a Comissão.

— E quanto a mim? — disse Rosan.

Jeamour pigarreou.

— Esta não é uma missão para uma senhora. Especialmente para uma aristocrata arcônida. As mulheres são tratadas de forma diferente aqui.

— Você não precisa me dizer isso comandante Jeamour. Eu já estive aqui uma vez! Vou me adaptar aos costumes primitivos e não sairei de casa sem meu yeshi-hihab...

Jeamour suspirou. Wyll ficou fora do assunto. Ele acreditava que Jeamour agora tinha notado como Rosan poderia ser determinada. Ela certamente não era uma boneca delicada, como muitos a viam. Durante o desastre da LONDON, ela tinha experimentado o suficiente. Certamente, teria sido a preferência de Wyll que Rosan permanecesse a bordo da IVANHOE, mas se ela já tinha definido algo em sua mente, ela não o ouviria  de qualquer maneira.

— Tudo bem. Mas cuidado. Não quero que você seja trocada em um mercado de escravos por quatro refrys — disse o comandante da IVANHOE.

— Só quatro? — Brincou Rosan.

Jeamour terminou a conferência. Eles embarcaram em um mundo irreal, lá fora, na esperança de saber mais sobre a Mordred.

 

3.

Mashratan

 

Rosan Orbanashol-Nordment olhou para a IVANHOE quando o space-jet saiu do hangar. Era uma visão impressionante, apesar de a LONDON ser maior e ter um formato imaginativo. Mas Rosan sabia que, em Mashratan, não iriam se afogar em lugar nenhum. Não havia quase nenhuma água. Isso tornava o planeta de alguma maneira agradável.

O planeta de cor ocre do sistema binário Mashritun tinha apenas alguns rios e possuía apenas oceanos subterrâneos. Desertos secos se estendiam por grande parte do planeta com 13.678 km de diâmetro.

Havia também algumas grandes cidades. A capital Vhrataalis ficava ao largo do maior rio do planeta. Na maioria dos casos, a população era distribuída nos oásis ou levava uma existência nômade. Mashratan era completamente diferente da Terra ou de Árcon. Ali, o tempo parecia literalmente passar de forma diferente. Por causa do embargo, o planeta se tornou ainda mais isolado do resto da Galáxia.

Rosan não sabia o que pensar das sanções. Principalmente, porque o real culpado não era punido, mas sim a pobre população. No início, Mashratan era um parceiro comercial popular da LTL e do Império de Cristal, mas também das organizações criminosas. Talvez fosse por isso.

Não era à toa que Michael Shorne, porta-voz da Hansa anterior a Arno Gaton, Uwahn Jenmuhs e seu padrasto Spector tinham bajulado o coronel Kerkum. Apenas seu pai se opôs aos negócios com Kerkum, mas morreu alguns meses mais tarde.

Rosan sempre suspeitara que Spector, ou um de seus sócios de negócios, talvez até Kerkum, poderia estar por trás disso. Era um acidente em que ela nunca tinha acreditado, apesar dos protestos de sua mãe.

Agora, muitos deles já estavam mortos. A mãe e Spector tinham morrido na LONDON e Arno Gaton havia cometido suicídio após o desastre. No entanto, o coronel Kerkum, Michael Shorne e Uwahn Jenmuhs ainda estavam vivos e aparentemente gozavam de boa saúde.

Rosan lembrou com arrepio da família Jenmuhs. As memórias do estupro pelo irmão gêmeo de Uwahn, Hajun, a bordo da LONDON II eram ainda muito claras. Ela tinha tentado esconder, para não deixar transparecer e desmoronar de vergonha por dentro. Hajun estava morto. Rosan não era completamente inocente de sua morte. Pelo menos ela tinha deixado Jenmuhs ao seu destino. Mas não sentia nenhum remorso, pois ele finalmente teve o que mereceu.

Agora, o próximo adversário era o coronel Ibrahim el Kerkum. O que ele provavelmente pensaria de maldades sádicas? Rosan estremeceu. Por que sempre tinham que enfrentar psicopatas? Esse era talvez o preço de uma vida de aventuras. Especialmente ao lado dos imortais. Eles atraíam os piores vilões, como as mariposas com a luz. Eles chegaram mais e mais perto de Mashratan e passaram a órbita das duas luas.

No hemisfério sul, a capital Vhrataalis estava em um planalto elevado, cercado por altas geleiras. Somente nos vales nas regiões montanhosas havia água aberta. Não era de admirar que a vida foliava nessas fontes, enquanto grandes partes do planeta ainda eram inexploradas.

— Estamos nos aproximando da órbita e recebemos permissão para pousar — relatou Lorif. — No entanto, Mathew, eu o aconselho a não executar nenhuma manobra indiscriminada e imprudente. Canhões antiaéreos estão direcionados para nós.

— Por quê? E o que sabemos? — perguntou Rosan.

Mathew Wallace riu maliciosamente.

— Bem, durante os voos de teste que Mathew Wallace já fez – principalmente pelo aumento da velocidade, não observância da distância correta de outros objetos e outras violações das regulamentações para o controle de espaçonaves — informou Lorif.

Wallace riu.

— Não se preocupe, eu vou pousar com segurança. Lorif exagera um pouco.

Wallace fez Rosan lembrar um pouco de Wyll. Nascido em 26 de janeiro de 1270 NCG o terrano não tinha nem 21 anos de idade e já era um aventureiro aspirante a oficial.

Mathew Wallace tinha começado sua carreira como um oficial muito jovem, mas muito talentoso. Sua mãe mudou-se seis anos após o seu nascimento para Camelot, onde Wallace cresceu. Apesar de suas raízes estarem na Terra, ele pertencia à “Geração Camelot”.

Ele rapidamente encontrou o seu interesse na frota espacial e completou o percurso habitual. Como um jovem cadete, tinha chegado em 1288 a TITANUS, destruída durante a luta contra os tolkandenses. Graças às suas boas habilidades de voo, Wallace escapou com sua tripulação em um space-jet.

Jeamour o notara e lhe oferecera ser comandante do space-jet. Wallace aceitou de imediato e recebeu o comando de todas as 25 unidades de space-jet da IVANHOE.

Rosan tinha simpatizado com o escocês delgado com olhos azuis, barba de três dias e longo cabelo emaranhado. Toda a liderança da tripulação da IVANHOE havia sido, evidentemente, uma boa escolha de Camelot. Embora o pos-bi Lorif, que só foi construído em 1289, estivesse constantemente falando e tagarelando tanto, que mesmo o calmo e tranquilo oxtornense Irwan Dove um momento ou outro suspirava de forma audível.

Rosan olhou para um cubo de trivídeo, que reproduzia as gravações das câmeras ópticas do ambiente em tempo real. Dentro da projeção tridimensional da superfície, Mashratan era visto em detalhes, com a ampliação cada vez maior e mais detalhada.

Ela reconheceu as colinas do planalto e do lago e seus afluentes eram claramente visíveis. Avistou, também, Vhrataalis, a única metrópole do planeta inóspito.

Prédios brancos e ocres com telhados planos dominavam a paisagem urbana. Arranha-céus sem adornos em forma de blocos alinhados. Apenas as grandes igrejas, mesquitas, sinagogas e templos brilhavam em reluzente esplendor.

Normalmente, as várias casas de adoração foram reunidas em um complexo e formavam uma unidade simbiótica. Isso deveria representar simbolicamente a Humanidade unida e todos os filhos da Lemúria. Embora Rosan achasse essa ideia fascinante — especialmente em um momento no qual a LTL e o Império de Cristal estavam em uma espécie de guerra fria — ela teria que seguir a religião vhratismo do “Deus Trino”, algo que lhe dava nojo. Admitidamente, um Deus comum era adorado na Terra e em Árcon, mas os mandamentos religiosos e a conduta moral e os derivados do “Livro Sagrado do Vhratismo” eram arcaicos e indignos de uma sociedade moderna e de mente aberta.

O space-jet sobrevoou o complexo do palácio, antes de Mathew Wallace se dirigir para a parte sul da cidade. Do lugar que tinha vindo à mensagem do Galacticum, que muito se assemelhava a uma pequena, mas bonita ala de alta segurança.

Wallace cumpriu sua promessa, pousou suavemente o space-jet no hangar, entre dois cruzadores 100 de metros. Com Rosan na comporta e a climatização do space-jet bem forte, ela acreditou que ia queimar de tão quente que estava. Ela retrocedeu e olhou para os rostos mostrando dor de Wyll e Mathew, mas saiu da mesma forma que eles. Apenas Irwan Dove pareceu relaxado. E, claro, Lorif.

— Que mundo ensolarado — disse o pos-bi.

— Muito ensolarado — Dove respondeu friamente, em seguida, olhou para a esquerda. Havia um grupo pessoas esperando por eles.

O comitê de recepção consistia em três homens e uma mulher. Claro, a mulher não era a embaixadora do Galacticum, porque isso teria prejudicado as relações com os mashratanos. Ela preferia servir mais como consultor para os aspectos culturais e inter-religiosos e se chamava Pauly Nemak. Rosan a conhecia de alguns programas de entrevistas. O terrano no uniforme cáqui com uma barriga grande de cerveja era aparentemente o embaixador. Ele seguiu na frente. Ao lado direito dele estava um barbudo aconense e do outro lado um anão arcônida.

De restante, Rosan viu na maior parte apenas robôs. Extraterrestres não se encontrariam ali, porque mesmo a mera presença de juelziishs, unitros, swoons ou tópsidas seria rejeitada pelos mashratanos por razões religiosas.

O homem um pouco obeso, meio careca e bigodudo parou na frente deles. Ele colocou as mãos nos quadris e examinou os camelotianos.

— Bem, então vocês são os rhodanianos! Bem, o comissário Khan da LTL me falou muito bem de vocês. Sou Petur Werna. Bem-vindos ao inferno!

 

*

 

As construções da estação, não só do lado de fora, davam uma impressão muito degradada, a decoração era espartana e combinava com a aparência do comandante Petur Werna. Tudo era desleixado e francamente sujo. Rosan também ficou surpresa que diversos mashratanos, aparentemente sem controle algum, entravam e saiam do escritório do Galacticum.

Werna explicou que havia apenas quinze galácticos ali. O restante era de pessoal local. Empregados domésticos, guardas de segurança, pessoal de manutenção e técnicos.

O barbudo aconense se chamava Argon tan Lasal. O arcônida, que não era de origem nobre, chamava se Luff Gerbana. Os outros onze galácticos não precisariam ver o grupo de Camelot.

Mathew Wallace, Irwan Dove, Wyll e Rosan sentaram-se. Lorif parou. Rosan estava feliz com um pouco de ar fresco. Mas, apesar de tudo, estava muito quente e os vapores presentes atormentavam o olfato. Pauly Nemak olhou com desprezo para a camelotiana. Rosan a fazia lembrar bem de algumas performances da terrana, particularmente acentuadas, que criticavam seu próprio povo. Ela era da opinião de que o Império Solar era culpado de muitos crimes e Rhodan e seu grupo de imortais deveriam ser julgados pelos galácticos, tendo que justificar os 1.500 anos de tirania, racismo, guerra e opressão.

Rosan só podia balançar sua cabeça para tanta, autoglorificação, ignorância e estupidez. Os românticos sociais modernos, como Pauly Nemak, tinham aumentado rapidamente a fé louca de que todos os males na Via Láctea eram culpa de Perry Rhodan e dos outros imortais. Ao mesmo tempo, no entanto, o movimento terracêntrico em torno de Buddcio Grigor e Medros Eavan havia criado uma ideologia nacionalista, que buscava restaurar a posição transfigurada do poder do Império Solar e, portanto, a suposta “Idade de Ouro” da Terra. Obviamente, ambos os grupos concordaram que a causa do declínio só poderia ser encontrada nos imortais. Foi particularmente preocupante para Rosan que houvesse evidências claramente visíveis de que a Mordred era alimentada exatamente por esse potencial nacionalista.

No entanto, além disso, era óbvio para todo mundo, que olhasse para a recente história galáctica de maneira mais imparcial, que era claramente apenas graças à organização dos imortais que o perigo de Goedda e dos dscherros podia ser evitado.

Essa percepção parecia lentamente ganhar terreno junto aos galácticos nos últimos meses, o que mostrou um crescente relaxamento entre Camelot e a LTL. No entanto, isso lhe causava cada vez mais medo e ela não podia deixar de pensar que essa impressão de desenvolvimento era a causa do terror crescente da Mordred.

A terrana tossiu em seu vestido que parecia um saco, Rosan lembrou do “Yeshi-Halef” da população rural feminina do país, presente em suas observações. Relutante, ela voltou a ligar os detalhes sobre a ex-estrela da mídia em sua memória.

Nemak servia como mediadora entre Mashratan, a LTL e o Galacticum, por causa das dúvidas dos mashratanos que estavam do outro lado, até mesmo pelos racistas mais radicais, porque eles não toleram formas de vida não-humanoides em seu mundo e até mesmo os mandamentos que poderiam ser extraídos do “livro do Vhratismo”, que exigia o genocídio de todos os “parasitas alienígenas”. Então Pauly Nemak era realmente contraditória, porque uma vez ela disse que seria melhor se a Via Láctea fosse transformada em um buraco negro, pois ela tinha sido dominada por racistas.

A única explicação para esta contradição seria o fato de que a ex-apresentadora subordinou tudo aos seus argumentos factuais de ódio e desprezo irracional por Camelot. Rosan não queria pensar no futuro que toda a pena romântica social da ex-apresentadora só servia para ludibriar o público galáctico, e disfarçar sua verdadeira atitude.

Pauly Nemak era, ao lado do apresentador de TV de direita Bekket Glyn, uma das figuras mais desagradáveis do mundo da mídia. Como estas pessoas iam ajudar em Mashratan era um mistério.

Foram servidos chá e suco de muxip. Irwan Dove liderou a conversa. O oxtornense disse aos inspetores que estavam procurando ligações entre Mashratan e a Mordred.

— Isso é fobia a mashratanos. Vocês farejam o mal em todo mashratano e acreditam que somos causadores de problemas. Basta voltar pela sua própria porta — Pauly Nemak interrompeu.

Petur Werna estava mais ocupado esperando a comida. Afinal de contas, Argon tan Lasal e Luff Gerbana eram mais cooperativos.

— Nós somos inspetores e observadores, não agentes secretos. Temos de trabalhar em conjunto com o governo mashratano. Claro, isso não nos conta os seus segredos. Se nos disserem o que estão procurando, talvez possamos ajudar — disse o aconense.

— Atividade incomum, por exemplo — disse Dove. — Movimentos de tropas, espaçonaves desconhecidas, atividades ou desaparecimento de pessoas — acrescentou.

Pauly sacudiu a cabeça e se afastou. Petur Werna tinha subido gemendo e entrou na cozinha para verificar de quanto tempo o kuhun frito provavelmente ainda precisaria.

Argon tan Lasal analisou vários protocolos no seu computador. Enquanto isso, um robô serviu comida e bebida. Havia apenas kuhun frito com legumes e batatas mashratanos. Rosan comeu pouco. Ela conhecia os costumes de abate dos mashratanos, o que estragava o seu apetite. Os animais eram lentamente desmontados vivos durante rituais. Rosan adorava carne, mas era incômodo o pensamento de que os animais eram torturados desnecessariamente.

— Existem de fato, algumas anomalias. Muitos transportes foram realizados no chamado átrio para o inferno, então no meio de um deserto muito irreal — informou Argon tan Lasal.

O aconense foi o mais útil de todos. Ele se ofereceu, aos camelotianos, para levá-los para esta localização. Os camelotianos observavam-no interrogativamente e finalmente Irwan Dove respondeu: — Aceitamos sua oferta de bom grado.

 

4.

Os próximos objetivos

No início de outubro do ano 1290 NCG, Dejabay

 

Outra conferência de alto nível da liderança da Mordred tinha sido convocada por Rhifa Hun em Dejabay. No entanto, alguns líderes da organização terrorista não estavam presentes, incluindo, naturalmente, o número quatro, que, no entanto, pediu licença e foi representado pelo número um, Rhifa Hun. Ainda assim, Despair e os outros ficaram intrigados com quem se escondia atrás do campo de nevoeiro disforme, mas apenas Rhifa Hun sabia a identidade do número quatro. Nem mesmo Despair e Kerkum sabiam o segredo, embora o número quatro fosse formalmente subordinado deles.

Cauthon Despair caminhou lentamente, como se tivesse todo o tempo do mundo, pela sala de conferência. A maioria dos outros já estava presente. Também o número três e número cinco estavam faltando. Despair sabia que eles estavam em Mashratan.

Despair olhou para cada um. Sentia-se em casa nesta campanha. Ele podia ler os rostos das pessoas, enquanto ninguém poderia interpretar seus gestos.

Particularmente, ele percebeu a tensão de Ben Trayir. O ertrusiano tinha medo. Com a eliminação dos camelotianos em Plofos, sete pessoas foram resgatadas. Tinha havido perdas da Mordred. Embora isso fosse apenas uma derrota parcial, ainda era uma derrota. Trayir estava com medo da reação do número um. Enquanto os outros estavam curiosos. A vida de Trayir não significava nada para eles. Cada líder estava em seu benefício próprio. Somente o grande respeito pelo número um os impedia de agir por conta própria ou de lutar entre si.

Eron da Quartermagin, o número nove da organização parecia ainda aguardar uma punição draconiana para o ertrusiano. Assim Quartermagin ascenderia na hierarquia da Mordred.

Para Cauthon Despair, essas ideias não eram relevantes. Apenas a queda de Camelot era importante para ele. Despair ainda sentia muita raiva e ódio de Rhodan e seus seguidores. Ele era obcecado pelo desejo de destruir os imortais, para, em seguida, introduzir uma nova ordem na Via Láctea, suas motivações não eram dinheiro ou poder.

A voz do Rhifa Hun foi reproduzida pelo sistema holográfico. O símbolo da Mordred apareceu sincronizado.

— Estamos aqui para discutir novas medidas — disse ele com uma voz distorcida.

Nenhuma das partes disse uma palavra. Ao contrário, eles estavam esperando o fim da pausa dramática.

— No entanto, antes de começarmos, eu falarei da nossa missão em Plofos.

Involuntariamente, Trayir estremeceu. Foi uma visão estranha. O destemido e musculoso ertrusiano mostrou seu medo tão obviamente que foi quase ridículo. Os olhos de seus colegas caíram sobre ele. Espontaneamente, o número oito se levantou para justificar-se.

— Senhor, os camelotianos começaram a proteger seus escritórios militarmente. Eu não tinha essa informação!

Ele permaneceu em silêncio. Trayir tremia um pouco e tocou o seu queixo. Ele esfregou a barba por fazer e engoliu profundamente.

— Além disso... — ele continuou com a voz entrecortada. — Além disso, os camelotianos têm um novo tipo de nave espacial, muito superior à minha nave. Eu não pude fazer nada!

Agora Rhifa Hun tomou a palavra.

— Estamos bem conscientes de que os camelotianos enviaram uma nave com o nome TAKVORIAN, com um diâmetro de 1.000 metros e equipada com tecnologia de ponta, para Plofos. Esta nave está sob o comando de um veterano de guerra do Império Solar chamado Joak Cascal, uma assombração dos demônios das estrelas dos reinos mais escuros do inferno. Em qualquer caso, temos que estar prontos no futuro, porque a resistência de Camelot se tornará mais profissional e eficaz, porque este Cascal adquiriu experiência suficiente ao longo da sua vida anterior. O tempo de vitórias fáceis para nós deve ser agora.

Ben Trayir tinha se acalmado, porque Rhifa Hun, aparentemente, não o culpou. Ele lentamente sentou-se e esperou as outras palavras do seu líder.

— O número oito não tem culpa. Ele, pelo contrário, atingiu seu objetivo principal, a liquidação de Camelot em Plofos.

— Quais são os nossos próximos alvos? — o mehandor Horach, número seis, quis saber.

— O número quatro está atualmente trabalhando para ganhar aliados para Mordred. Até lá, continuaremos com a destruição dos escritórios de Camelot. Eu escolhi seis novos alvos. Eles são Esfinge, Archetz, Lepso, Oxtorne, Gaia e Sverigor — ele disse em voz baixa.

Despair levantou a cabeça, espantado, quando ouviu o nome Sverigor. Rhifa Hun sabia exatamente o que havia em Sverigor. Cauthon Despair achava até agora que deixariam Sverigor despercebido.

Eles atribuíram números aos mundos. Horach deveria destruir os representantes de Camelot em seu planeta natal Archetz, Trayir assumiria Lepso, Oran Tazun pegou Esfinge e Quartermagin ofereceu-se para Sverigor.

— Não, eu assumo Sverigor! — disse Despair, interferindo. Irritado, o arcônida se virou e olhou para o Cavaleiro Prateado.

— Eu já tinha me oferecido antes, para assumir o planeta — disse Quartermagin, justificando-se.

Despair se aproximou dele. O forte arcônida involuntariamente voltou ao seu lugar.

— Este é um planeta completamente insignificante, por que o alvoroço? — ele perguntou.

Despair não se imaginava prestando contas para Quartermagin. Em vez disso, ele se virou para Rhifa Hun.

— Deixe-me assumir Sverigor! — ele exigiu em um tom invulgarmente duro para seu comandante supremo.

Nenhum outro teria coragem de falar assim com o número um. Nos primeiros anos da construção da Mordred, houve um total de quinze números, mas cinco tinham encontrado uma morte horrível devido a traição ou fracasso pessoal. Rhifa Hun não conhecia misericórdia. Todos os presentes estavam aguardando ansiosamente a resposta.

— Número nove vai assumir Gaia e Cauthon Despair será o longo braço da Mordred em Sverigor, esmagando os camelotianos. A sessão está acabada!

— Como quiser — disse Despair e curvou-se brevemente.

Em seguida, ele deixou a sala de conferências com passos acelerados. Embora não visse Zantra Solynger há oito anos e ela o houvesse chamado em seu último encontro de psicopata, ele nunca perdeu seus sentimentos por ela completamente.

Despair não sabia o que faria com ela em Sverigor. Ela trabalhava no escritório camelotiano. Ele iria matá-la ou deixá-la viver? Uma decisão que ele jamais saberia, o que sabia era que só ele poderia decidir sobre o destino de Zantra.

 

*

 

Despair chegou na VERDUN, localizada no espaçoporto subterrâneo de Dejabay. Estava chovendo, como de costume, na superfície do planeta pantanoso e tropical.

Robôs de manutenção trabalhavam na fuselagem do único couraçado existente da classe NEOUNIVERSO. Um grupo de soldados saudaram Despair quando passou por eles.

Despair pensou em Zantra Solynger enquanto abria caminho para a central de comando, via esteiras rolantes e antígravo. O que deveria ser feito com ela? No extermínio dos escritórios de Camelot, ele não poderia ser influenciado por sentimentos pessoais. Zantra o tinha machucado e humilhado. Era a sua morte a punição apropriada? Ou deveria conservar seus antigos sentimentos por ela?

Ele foi interrompido em seus pensamentos pelo almirante Kenneth Kolley, que esperava Despair no corredor fora da central de comando. O comandante da VERDUN fez uma saudação ante seu superior.

— Quanto tempo falta para a nave estar pronta?

— Em 45 minutos podemos decolar, senhor!

— Muito bom, almirante! Defina o curso para o sistema Malmoon. Vamos cuidar dos escritórios de Camelot em Sverigor.

Kolley imediatamente começou a trabalhar, enquanto Despair caminhou lentamente através da central de comando. Ele não esperava nunca mais voltar a ver Zantra. Ela era um símbolo de sua vida confusa. Despair nunca foi importante para ela. Ele foi, aparentemente, apenas um passatempo. Todas as muitas noites e as conversas inarráveis eram insignificantes.

Despair respirava pesadamente. Suas mãos se fecharam em punhos. Talvez alguma coisa teria sido diferente se Zantra tivesse lhe dado uma chance. É possível que ele teria perdoado até mesmo a traição de Rhodan. Mas não havia nada em Camelot que o teria induzido a um retorno.

Não, a sua nova casa era Mordred. Ali, ele tinha encontrado seu destino. Quando encontrou a Mordred, ele encontrou respeito e reconhecimento, coisas que quis sua vida toda. Os oficiais, soldados e membros da Mordred temiam o Cavaleiro Prateado, como o chamavam respeitosamente. Sua armadura lhe dava essa aura. Sua intransigência, sua imprevisibilidade e sua frieza faziam estremecer igualmente os aliados e os inimigos.

O ódio o fez poderoso. Em Camelot, ele fora um jovem ingênuo, facilmente ignorado, e ainda assim era esperançoso. Todos tinham pisado nele. E, para Perry Rhodan, Despair tinha sido tão sem importância que ele deliberadamente o tinha deixado para morrer, como efeito colateral, durante o bombardeio em Mashratan.

Zantra Solynger tinha feito sua contribuição para o seu caminho para a Mordred. Ela tinha uma vez o chamado de psicopata. Insultos eram pronunciados facilmente, ela se sentia uma pessoa infinitamente superior. Então ele decidiu que Zantra Solynger pagaria por sua falta de amor, deslealdade e impertinência.

 

*

 

Cauthon Despair abriu o arquivo Sverigor. A imagem holográfica do planeta se tornou visível. Lentamente, o holograma ampliou para mais perto. Montanhas, vales, rios e cidades se tornaram reconhecíveis.

Sverigor era uma colônia da LTL, fundada em 2569 do antigo calendário, ainda nos tempos do Império Solar, por emigrantes suecos. Portanto, este mundo tinha um toque do Norte da Europa. Sverigor estava no sistema Malmoon, a 1.978 anos-luz do Sol. Sua estrela era amarela, de tamanho médio. O sistema tinha outros sete planetas, mas apenas Sverigor era habitável. A gravidade era de 0,93 gravo, o diâmetro era 10.867 km, a temperatura média nas regiões habitadas era de apenas 10 graus Celsius.

A capital do mundo, com dois bilhões de habitantes, se chamava Nova Estocolmo e era o lar de quase nove milhões de galácticos. Outras cidades eram conhecidas como Nova Trelleborg, Nova Gotemburgo e Nova Malmo.

Uma natureza impressionante distinguia este planeta. Sverigor era um popular destino turístico, embora, nos últimos 50 anos, um sentimento negativo houvesse se estabelecido contra os cidadãos da LTL e o Império de Cristal.

Despair deu entrada na documentação oficial de entrada no planeta. Ele ativou o arquivo. O rosto de um homem de pele escura com cabelo e barba vermelhos apareceu.

— Bem-vindo, indivíduo único. Eu sou o guia e o levarei para mais perto de nosso maravilhoso, colorido e diversificado mundo da paz.

Despair sentou-se em sua ampla poltrona e se inclinou profundamente. Já a introdução do vídeo lhe pareceu perfeita demais. Ele ignorou o passeio através das grandes florestas, lagos e montanhas. Ao contrário, ele estava interessado na sociedade de Sverigor.

— Sverigor é habitada desde o século 26 da era anterior ao NCG. Sempre foi um planeta de migração e imigração de todas as partes da Galáxia. Estamos muito orgulhosos disso. No entanto, não estamos contentes com o período do Império Solar. Naquela época, nossos antepassados carregaram grande culpa. Nós, como humanos, vivemos com esta responsabilidade e rejeitamos todas as formas de racismo, o imperialismo e o fascismo, como já foi praticado criminosamente no Império Solar.

Despair ficou intrigado com esta declaração. Todo império era imperialista, por definição. Mas, para ele, gostando ou não de Rhodan, era ousado imputar racismo e fascismo ao Império Solar. Mas Despair estava curioso e tinha que continuar o relato sobre Sverigor.

Nós temos uma democracia real. O nosso espírito moderno é equivalente à vida no século 13 NCG. Nós amamos e respeitamos as culturas e as religiões, costumes e tradições de todos os povos galácticos. Nossa tolerância, nossa alegria de viver e nossa vontade de enriquecer a nossa cultura por indivíduos de diversas civilizações galácticas faz de Sverigor uma nova casa popular para os cidadãos da Galáxia.

O vídeo mostrou bem contentes blues, ferrônios, saltadores, swoons, tópsidas, unitros e halutenses. Todos estavam felizes e viviam em paz e harmonia uns com os outros. Essa era a versão oficial. Mas Despair sabia que muitos problemas foram varridos para debaixo do tapete em Sverigor. A atitude tolerante para com todos os seres da Galáxia tinha atraído muitos criminosos e várias organizações criminosas. Eles dominaram assentamentos inteiros e puderam seguir livremente com seus negócios.

Sverigor era um mundo autossuficiente. Como as tendências nacionalistas se tornaram mais fortes na LTL e a partir da chegada ao poder de Buddico Grigor, Sverigor deixou a LTL. A falácia da igualdade absoluta de tudo era contraditória e irrealizável, mas isto também era o mais elevado princípio constitucional. Racismo e discriminação eram estritamente proibidos, de qualquer forma.

Despair avançou um pouco a mensagem de vídeo. Então ele parou mais adiante e deixou o narrador continuar.

— Fizemo-nos livres do racismo e da discriminação. Renunciamos ao fascismo e ao nacionalismo da LTL e do Império de Cristal. Não seguimos o conto do rhodanismo e a superioridade da raça terrana. Não nos ajoelhamos diante da ilusão de milhões de olhos dos déspotas de Árcon.

“Nós amamos cada indivíduo, não importa de onde vem. Os seres humanos, por exemplo, não são melhores do que um tópsida, mas, pelo contrário são carregados de muita culpa, porque trouxeram sofrimentos intermináveis à Via Láctea. Queremos dizer aos nossos amigos da Via Láctea que estamos envergonhados pelas ações de nossa raça.

Condenamos o imperialismo de Árcon durante milênios.

Condenamos a ingênua expansão egoísta de Perry Rhodan no tempo do Império Solar.

Nós assumimos a culpa pelas guerras contra os tópsidas, aconenses e juelziishianos.

Por causa das implacáveis políticas terranas, o povo pariczano foi empurrado para o isolamento. Através da nossa violência contra eles, foram criados os Leticron. Devido à nossa falha, a maioria foi relegada.

O comportamento imprudente de Rhodan, com guerras lascivas, nos trouxe inimigos de todo o Universo e nos mergulhou em inúmeras crises.

Sabemos que a Humanidade é uma besta-fera. Mas estamos fazendo a reparação em Sverigor. Nós criamos uma comunidade diversificada, propagando paz, alegria e felicidade.”

Despair estava confuso. Aparentemente, os sveriguenses agora odiavam o seu próprio povo e distanciavam-se dele. A interpretação peculiar da história galáctica obviamente parecia funcionar em Sverigor.

Despair balançou a cabeça para essa loucura e bateu com o punho na mesa. Sverigor era um mundo desprezível. Eles desdenhavam sua própria história. A Humanidade agora estava fraca, dividida e extremamente arrogante. Eles julgavam com desprezo as realizações dos tempos do Império Solar. Oh, sim, Cauthon Despair odiava Perry Rhodan por sua traição, mas ele tinha que admitir que Rhodan e seus companheiros tinham salvado a Humanidade de sua própria autodestruição.

Mas nada disso valia algo atualmente. Se eram extremistas nacionalistas ou românticos sociais sem esperança, como os sveriguenses, sua atitude para com os ideais do Império Solar só servia aos seus pontos de vista estranhos.

A mão do Império de Cristal estava no caminho certo. Mas isso não ajudou muito os terranos. Sociedades como a de Sverigor pareciam satisfeitas ainda mais.

A cabeça de Despair zumbiu com toda essa loucura. Não havia nenhum gênero, mesmo a distinção entre homens e mulheres constituía discriminação. Tudo era gênero neutro. Várias palavras, frases e expressões foram proibidas sob pena. Qualquer religião terrana foi proibida. Somente as religiões dos povos não-humanoides foram autorizadas. Os sveriguenses estavam sujeitos a um ecológico índice-físico de massa. Quem quer que estivesse fora dos valores permitidos, era geneticamente modificado, de modo a não poluir o meio ambiente e ter uma vida mais saudável.

O objetivo era o indivíduo perfeito, que, ao mesmo tempo, estava dentro das normas sociais. Mais uma vez, ele só pôde balançar sua cabeça.

Sverigor era um estranho mundo cheio de contradições, embora alegassem ter abolido exatamente essas contradições. Ele estava curioso sobre eles, em alguns aspectos, mesmo que só tivesse ordem de deixar o escritório de Camelot em escombros.

 

*

 

Algumas horas mais tarde.

Cauthon Despair tinha absorvido informações suficientes sobre Sverigor. Não era nada de especial que uma administração fingia absoluta harmonia e perfeição. Todo governo se coloca em um lado ensolarado.

Mas os relatórios de inteligência são marcadamente diferentes da versão oficial de Sverigor. A coordenação em nome da democracia e da tolerância tinha suas desvantagens.

Milhões de sveriguenses tinham deixado sua terra natal durante as últimas décadas, para reinstalar-se em outro local. Principalmente os sveriguenses de ascendência humana, segundo um relatório vazado de Camelot que Despair lera.

É louvável a ambição da administração de Sverigor de erradicar a arrogância racial, injustiça e discriminação. Mas, para tanto, a administração usou meios não democráticos para o controle de pensamentos, através de drogas e alterações genéticas, por quase 50 anos. O caráter multiétnico do planeta Sverigor também sofreu com suas próprias reivindicações. No desejo de tratar todos igualmente, a injustiça, que supostamente queriam abolir, acabou sendo criada. O sistema social global e de justiça frouxa criou um paraíso para as organizações criminosas.

O tráfico de drogas, o contrabando e a pirataria floresceram em Sverigor. As áreas problemáticas eram ignoradas publicamente. De acordo com as informações, a administração acredita que tais “grandes eventos” teriam sido feitos em uma geração.

Também se observa uma atitude totalitária no sentido dissidente. As políticas da administração devem ser seguidas. Penalidades são impostas contra os dissidentes, na forma de altas multas, prisão ou condenação pública, com uma entrada na rede de Sverigor.

Por exemplo, é imposta uma pena para o abandono de uma mãe, filha, marido ou esposa. A cor azul é considerada um insulto para um juelziishiano. A cor verde-limão, em associação com o uniforme do Império Solar, era considerada como de extremista. Assim, uma peça de roupa verde-limão transforma um homem em fascista e, naturalmente, ele era severamente punido.

Clãs e as organizações criminosas permanecem intocadas, porque todo o sistema policial e judicial está ocupado tentando controlar o cumprimento das regras de igualdade e monitorar e reprimir as infrações. Eles encorajam o ódio nos sveriguenses pelos próprios seres humanos e sabem que permanecerão sem serem molestados.

As gangues usam Sverigor como um ponto de partida e base, mas raramente cometem crimes no próprio mundo. No entanto, ataques ocorrem, e nenhuma menção é feita em público, a fim de não questionar o sistema.

Imigração e emigração são elevadas em Sverigor. De acordo com as investigações, também migram muitos extraterrestres, desde juelziishianos, tópsidas, unitros, swoons, que acabam ficando decepcionados com o planeta, por causa da “doutrina de correção”, que também era monitorada por uma autoridade de correção.

Sverigor pode ser um mundo paradisíaco para os seguidores do sistema. No entanto, não é livre. Os grupos das organizações criminosas fazem de Sverigor, um local de férias (apesar da má reputação na Galáxia), um barril de pólvora.

 

*

 

Os sveriguenses inspiraram-se tanto pelo seu desejo de criar uma sociedade tolerante na Galáxia, que aplicaram, de fato, meios que condenavam.

Despair confirmou apenas seu ponto de vista. Demasiada liberdade tornava o indivíduo estúpido e perigoso. Uma nação precisa de uma mão forte que a conduz à justiça. Do que Sverigor deveria se orgulhar? O fato de uma criança não poder chamar sua mãe de mamãe? Que havia se tornado o Eldorado dos sindicatos galácticos do crime, porque tinham a certeza de que não iam ser procurados, por não serem da raça humana? Que o sistema entre o bem e os crimes era diferente? Era justo?

O Império Solar e os seus seguidores verde-limão eram muito malvistos em Sverigor. Que idiotas! Apenas um império forte e unido com a Humanidade, que se estendia por toda a Galáxia, conseguiu salvar esta da destruição. Uma mão forte conseguiu esmagar tais ideologias tolas.

Cauthon Despair ainda estava curioso sobre os sveriguenses, porque sua sociedade diferia fundamentalmente de tudo que conhecia. Antes de destruir o escritório de Camelot, e talvez Zantra Solynger, ele queria obter uma imagem desta sociedade.

 

5.

A partir das Crônicas – Visita à Terra

 

A delegação de Camelot consistia em três pessoas: Homer G. Adams, Wirsal Cell e o saggittonense Aurec. Chegaram em minha casa de campo nas encostas de Siena por volta das onze horas. Eu estava feliz por Nataly estar alojada comigo essa semana, para me ajudar.

A minha sobrinha tinha se tornado uma bonita jovem de 20 anos. Ela usava os longos cabelos louros para trás e cada homem que olhava em seus olhos azuis ficava imediatamente encantado. Pelo menos até conhecer seu temperamento explosivo. Bem alto, ela berrou para seu pobre cão Pally, porque ele já era independente. Nataly era da opinião que os cães deviam ser submetidos a um rigoroso treinamento. Bem, o pobre cão obviamente seria educado de acordo com a doutrina militar prussiana.

Enquanto eu recebia os convidados, Nataly preparou café, chá, bebidas frias e sanduíches. Eu conhecia Homer. Para todos que conhecessem a história da Via Láctea, Homer G. Adams era uma lenda. Eu ainda não conhecia seu companheiro Wirsal Cell, um homem mais velho e gordinho. O cabelo esparso, cinza, estava embaraçado e despenteado. Ainda havia o carismático saggittonense Aurec. Ele era um pouco menor do que eu imaginava, mas o seu sorriso encantador e sofisticada aparência me mostraram que o jovem chanceler de Saggitton tinha o coração no lugar certo.

— É a sua primeira visita à Terra? — perguntei para Aurec.

o saggittonense confirmou.

— Eu ouvi muito sobre o planeta natal dos terranos. Esta área é muito agradável. Ela me lembra de Saggitton.

Nós nos sentamos, sem sermos incomodados. Claro, guarnições de vigilância terranas, de Camelot e do Serviço da Liga, foram espalhados ao redor da propriedade. Mas ninguém queria fazer uma ocasião estatal dessa reunião. Homer G. Adams informou que Wirsal Cell tinha sido dos mentores de Cauthon Despair na Academia Espacial de Port Arthur.

— Bem, Homer esperava que eu pudesse analisar a psique de Despair. Mas meu contato com ele foi há quase oito anos. Cauthon era um jovem ambicioso, que nunca soube lidar com a rejeição dos outros — relatou Wirsal Cell enquanto bebia chá com as mãos trêmulas.

Cell parecia sofrer com a situação. Provavelmente, ele se culpava pelo desastre. Eu teria também, se um dos meus alunos fosse capaz de tais crimes. Pelo menos eu teria me perguntado se poderia ter evitado o seu caminho. Homer G. Adams afirmou que tinham garantido a proteção de todos os escritórios de Camelot. Escritórios nos mundos menos importantes já tinham sido evacuados completamente. No entanto, as perdas em Imart, Zalit, Olimpo, Gatas e Plofos pesavam fortemente sobre ele.

— A Mordred brinca conosco. Despair conhece as coordenadas de Fênix. Por que ele não nos ataca? — perguntou Adams.

— Ou a Mordred está fraca demais para isso ou ela só brinca com vocês e quer saborear o triunfo — suspeitou Aurec. — Além disso, não sabemos exatamente se Despair é realmente o líder da Mordred — acrescentou o saggittonense.

O ataque desta organização terrorista tinha pegado Camelot — na verdade toda a Galáxia — de surpresa. Perry Rhodan, Reginald Bull, Atlan, Gucky e Icho Tolot estavam dispersos no Universo. O Serviço da Liga Terrana ficou muito enfraquecido desde a transferência da sua torre por meio dos Baluartes Heliotianos. Tanto a LTL quanto os outros grupos de poder na Galáxia ainda sofriam sob os ataques dos tolkandenses. Assim, o outono de 1290 NCG se tornou rapidamente um inverno.

Camelot, depois de tudo, investigou em todas as direções. O somerense Sam foi para Stiftermann III, mais especificamente com a BASE, à procura de pistas da organização criminosa Mordred. A IVANHOE levou Wyll Nordment e sua encantadora esposa Rosan ao inóspito planeta Mashratan, para examiná-lo com uma lupa.

A proteção dos escritórios de Camelot em diversos mundos era liderada por Joak Cascal e Sandal Tolk na TAKVORIAN. Fiquei um pouco decepcionado por não ter a oportunidade de falar com os dois veteranos do século 36 dC. Através de suas aventuras no casulo de espaço-tempo dos casaros, eles contavam, ao lado dos portadores de ativador celular, entre as pessoas mais velhas da Galáxia.

Jaaron sabia de uma expedição da LTL e de Camelot na dobra de espaço-tempo para obter mais pistas. Afinal de contas, era bem possível que os casaros tivessem outras bases no Grupo Local. Parecia-me que os dias atuais estavam cheios de perigo.

Depois de uma hora, chegou o agente do SLT Stewart Landry. Depois de flertar um pouco com Nataly, bem baixo, de longe se via que era um agente da inteligência, Landry se juntou a nós. Eu o conhecia há alguns anos, e Landry era um dos poucos oficiais de inteligência da LTL que trabalhava com prazer e abertamente com Camelot.

— Cistolo Khan e seu assistente vão chegar a Siena, à noite — anunciou.

Landry tinha a confiança dos camelotianos. Afinal, ele tinha ido em busca da sequestrada LONDON cinco anos atrás e, por semanas, se escondera com o rato-castor Gucky em um recipiente, dentro da espaçonave dos sequestradores. Então não me surpreendeu que Landry admitiu que o SLT teria enviado um agente chamado Will Dean para a BASE, que devia trabalhar lá disfarçado.

— Sam e Dean, com um pouco de sorte, conseguirão trabalhar juntos. O menino é muito afável, se pegarem no pé dele direito — disse Landry.

— Devemos trabalhar juntos neste assunto. Isso Khan também deve entender — advertiu Adams.

Landry forçou um sorriso.

— Eu sei.

Um silêncio pesado voltou. Para cada presente estava claro que — apesar do dia ameno de outono — não estavam em um churrasco, mas para discutir sobre as medidas de defesa contra a Mordred.

E, na verdade, havia muito nas mãos da LTL. Ela cooperaria com Camelot, como tinha feito na necessidade da crise dos tolkandenses e dos dscherros, então havia uma chance de parar a Mordred rapidamente. No entanto, a LTL poderia querer ver depois disto Camelot derrubado, deixando em aberto como tudo aquilo terminaria…

 

6.

Segredos em Mashratan

 

Eles estavam esperando o anoitecer. Não estava tão quente nas planícies desérticas de Mashratan. Os dois planadores flutuaram suavemente pelo solo do deserto, agitando os grãos de areia.

Rosan e Wyll estavam, com o aconense Argon tan Lasal, a bordo do primeiro planador. O inspetor atarracado do Galacticum coçava regularmente sua barba.

Embora tivesse alguns quilos extras sobre as costelas, ele era atraente. A pele aveludada marrom do aconense parecia ser mais bronzeada do que o normal, o que provavelmente devia-se à luz solar intensa das duas estrelas do sistema.

No segundo planador estavam Mathew Wallace e Lorif. Irwan Dove tinha permanecido na estação, para protegê-la, para a alegria de Rosan, o mesmo para a antipática Pauly Nemak. Tan Lasal e os inspetores não pareciam particularmente animados pela visita da delegação de Camelot.

Rosan teve a sensação de que os inspetores do Galacticum serviram para alguma coisa apenas na época deles. Se a Mordred tinha realmente algo a ver com o governo mashratano, por que ninguém percebeu? E o objetivo da supervisão do Galacticum era apenas prestar atenção a essas coisas.

— Você é da nobreza aconense? — perguntou Nordment, fumando um cigarro.

— Está certo. Meu nome correto é Argon tan Lasal. Eu me acostumei com o fato de alguns galácticos usarem apenas a tradução usual para o intercosmo.

Lasal riu e pediu um cigarro para Nordment.

Rosan sabia que o nome tan era da alta nobreza. Assim, ele pertencia a uma das poderosas famílias de Vakt’son. Rosan tinha certeza de já ter ouvido o nome Lasal, embora não conseguisse se lembrar de detalhes.

Aconenses e arcônidas não se davam particularmente bem. Por isso, raramente ocorria de um delegado aconense visitar a casa dos Orbanashol. Somado a isso, os aconenses oficialmente pertenciam ao Fórum Raglund, assim, trabalhavam contra os interesses do Império de Cristal.

— Ah, eu gostaria de estar agora em Drorah. Nas geleiras das montanhas Krynor  agora é agradável e fresco — disse tan Lasal.

— Você quer dizer Esfinge? — Wyll perguntou.

Rosan tossiu. Ela notou o olhar depreciativo na face do aconense. Rosan particularmente não queria ter que explicar a seu marido.

— Esfinge é o nome terrano — disse tan Lasal. — Nós aconenses preferimos o nosso nome.

— Oh, sim, claro. Sinto muito — Wyll pediu desculpas.

Argon tan Lasal ficou satisfeito e sorriu. Rosan desejou que todos os conflitos fossem tão fáceis de resolver. Na verdade, muitos termos aconense foram traduzidos para o intercosmo, com denominações terranas. Os aconenses, é claro, estavam pouco animados. Mas era um costume típico terrano ou melhor, um mau hábito. Quantas vezes Rosan teve de ouvir comentários depreciativos dos arcônidas quando alguém dizia Árcon em vez de Gos’Ranton.

— Drorah é muito diferente de Mashratan. Aqui só existe areia e calor. Em Drorah há abundância de água e ar fresco, frio, vento suave. Não como aqui. Tudo aqui é abafado. — O aconense suspirou.

— Bem, já tivemos experiências ruins com muita água — Nordment disse, aludindo à perda da LONDON. Argon olhou os dois, sem entender, então, obviamente, ficou claro para ele.

— Sim, vocês dois são como celebridades. Sua história de amor foi mesma feita para um filme. Mas a glória da minha família é limitada apenas à jurisdição aconense.

— O que sua família faz?

— O que faz uma família aconense da alta nobreza. Política, economia, ocasiões sociais. Podemos ajudar a moldar a vida aconense. Minha mãe está no Conselho do Governo, meu irmão no Comando Energético e meu pai direciona nossa empresa, que está envolvida na exploração de núcleos planetários e oceanos. Eu também estava na política, embora...

Argon tan Lasal hesitou. Rosan e Wyll olharam para ele com curiosidade. Aparentemente, o homem tinha segredos que não queria falar para todo mundo. Ele coçou novamente a barba e soltou um assobio.

— Bem, nós temos interesses econômicos em Mashratan. Nossa empresa poderia mudar a estrutura geológica do planeta, criar mais recursos hídricos. É por isso que me ofereci para o cargo de chefe de gabinete. Talvez um negócio aparecesse.

— Eu admiro o seu altruísmo — Rosan disse, desapontada.

— Todos devem saber onde é seu lugar. A população de Mashratan tem direito à vida e ao desenvolvimento. E se eu ganhar dinheiro com isso, não seria ruim — o aconense se defendeu.

— Mas fazer negócios com coronel Kerkum é errado — disse Rosan.

— E se o que os mashratanos veem hoje é que precisam de água com urgência?

Rosan suspirou. O aconense não estava errado. Os pastores de refry normalmente eram muito simples em Mashratan; e não poderiam ser punidos pelos crimes do coronel Kerkum. Mas as penas da LTL eram aplicadas principalmente às pessoas comuns, por isso ele era poupado.

— Se novos reservatórios de água forem criados, eles também serão acessíveis para os agricultores comuns? — perguntou Wyll com um sorriso acidificado.

Argon tan Lasal assentiu.

— A morte é sem sentido. Mas vamos, naturalmente, adaptar a situação de preços neste planeta. Mas pode levar anos antes que eu chegue a um acordo com Kerkum. A menos que ele seja derrubado. Então, um novo governo pode melhorar nossas cartas.

Rosan olhou pela janela. As estrelas brilhavam, doando um pouco de luz. Mas não havia muito para se ver. Dunas de areia se alinhavam com outras dunas. Um mundo desolado.

Rosan fechou os olhos para dormir um pouco.

*

 

— Acorde, querida!

Wyll apertou delicadamente sua amada. Lentamente, ela abriu os olhos e passou a mão pelo rosto.

— Quanto tempo eu dormi?

— Quase duas horas. Nós descobrimos uma coleção de planadores e edifícios a cerca de 20 km daqui. Argon é da opinião de que é a nave transportadora.

Rosan levou alguns minutos para ficar totalmente acordada. Suas costas doíam. Aparentemente, ela não tinha escolhido uma posição muito confortável para dormir. Eles saíram do planador. Embora fosse noite, ainda estava muito quente. Ela viu o alto Mathew Wallace e o pos-bi cinza Lorif os seguindo. Os olhos vermelhos de Lorif brilharam artisticamente na escuridão.

Wallace instalou um emissor de interferência nos dois planadores. Isto deveria impedir a localização dos veículos. É claro que havia tecnologias sofisticadas, que poderiam quebrar a proteção contra localização e driblar o emissor de interferência.

— Eu enviei as coordenadas para Irwan Dove. A questão agora é dos nossos próximos passos — disse Lorif. — Talvez devêssemos pedir novas instruções da IVANHOE.

Wyll Nordment assentiu.

— Isso fica para depois. Devemos olhar mais de perto a estação. Qual o problema?

— Bem, senhor, há um número de riscos incalculáveis que tomaríamos. Haveria, por exemplo...

— Feche a boca, Lorif! Nós vamos olhar — Nordment decidiu.

— Fechar a boca? — repetiu o pos-bi, irritado. — Eu não tenho boca e não vi nenhuma que possa fechar. Só se pode manter uma escotilha fechada, mas não se pode trancá-la.

Wyll murmurou algo para si mesmo. Então todo mundo voltou para o seu planador, para terminar os 20 quilômetros restantes em poucos minutos.

 

*

 

Uma torre solitária se projetava para fora da areia. Ela tinha talvez uns dez metros de altura. Abaixo dela havia uma grande abertura, que aparentemente conduzia para as profundezas. Em frente a essa abertura, havia quatro planadores.

Mais não podia ser visto na superfície da estação supostamente secreta.

— Para mim, isso parece uma entrada para um lago subterrâneo. É possível que tenham encontrado novos recursos hídricos — disse o aconense Argon tan Lasal.

— Você não sabe nada sobre eles? — perguntou Wyll Nordment.

Ele deu de ombros.

— Infelizmente não.

Rosan sabia o que se passava com seu marido. Ele estava zangado com a maneira frouxa dos inspetores. Mas ele estava ciente de que o protetorado de Mashratan também não era uma grande potência. Porém, Rosan se surpreendeu por justamente Argon tan Lasal não saber nada de uma nova observação de água subterrânea, que era o seu domínio profissional.

Talvez Argon tan Lasal estivesse exagerando com seu compromisso. Alguns políticos jogavam em nível galáctico; mas, em Mashratan, o inspetor poderia apenas relaxar e bancar o filho de pais bem-sucedidos. Provavelmente ele nunca levava suas tarefas realmente a sério.

— O que faremos agora? — perguntou Rosan.

— Não podemos simplesmente nos intrometer, como se fossemos um entregador de pizza — disse Mathew Wallace.

Rosan pensou em uma pizza deliciosa, quente e com suculentos cogumelos arcônidas, tomates e pimentas do jardim de Gucky, algumas linguiças e queijo derretido de boa espessura.

Wyll pigarreou quando notou a ausência de sua esposa.

— Você está pensando em outro cara?

— Não, em uma pizza...

Wyll e Mathew Wallace riram ao mesmo tempo. Argon tan Lasal, no entanto, pareceu se divertir pouco. Aparentemente, ele queria voltar. Talvez a aventura agora fosse muito quente.

— Argon é inspetor do Galacticum. Ele tem acesso a quase todos os lugares. Vamos fingir sermos seus assistentes. Se ficar tudo ok, nada acontece. Se virar uma situação tortuosa na estação, saberemos também — disse Nordment.

— Bem, senhor, apenas uma objeção. Na situação de existir unidades da Mordred ou mashratanas cheias de ódio, que plano de fuga temos?

Wyll apontou o dedo para o pos-bi.

— Boa objeção, meu amigo. Nós improvisaremos, então.

— Improvisaremos? Isso não é muita falta de visão?

Wyll sugeriu que Mathew Wallace deveria ficar nos planadores. Eles precisariam de Lorif, porque ele tinha mais conhecimento e habilidades analíticas, além dos equipamentos necessários.

Argon tan Lasal deveria realizar uma inspeção de surpresa. Wyll e Rosan seriam seus assistentes e Lorif seu servo robô pessoal. Se algo desse errado, Mathew Wallace teria a honrosa tarefa de chegar com algo para sua libertação.

Rosan admitiu que este plano tinha suas falhas, mas ela achou, de alguma forma, emocionante estar novamente envolvida em uma ação aventureira, que excepcionalmente não tinha nada a ver com uma nave espacial de luxo.

 

*

O três deixaram os pilotos dos planadores mashratanos com Mathew Wallace e o segundo planador. Nordment dirigiu o veículo voador para a grande torre. Ele esperou e não demorou muito para que alguns mashratanos saíssem apressados do interior em prontidão a eles. Rosan notou que estavam armados com radiadores de agulhas e, portanto, poderiam ser perigosos.

Argon tan Lasal saiu do planador e revelou-se. Ele falou com o oficial de serviço, aparentemente em mashratano, e disse-lhe que estavam em uma inspeção não anunciada. O mashratano barbudo continuou olhando interrogativamente para seus homens. Em seguida, ele voltou xingando para o interior da torre, aparentemente para solicitar novas instruções. Os outros três guardas andavam para cima e para baixo, inquietos e sussurrando entre si.

— Você entende o que eles dizem? — Wyll perguntou para Lorif.

— Meus sensores acústicos são obviamente muito superiores ao ouvido humano, senhor. Claro, eu entendo o que eles sussurram...

— Você poderia, por favor, ser gentil o suficiente para deixar-nos compartilhar de seu conhecimento? — Wyll perguntou, impaciente.

— Bem, oh, meus queridos! Eles se perguntam se não devem simplesmente explodir a cabeça do aconense. Eles também usam alguns desagradáveis palavrões contra nós. Que eu me nego a traduzir.

Wyll pediu a Rosan para ativar sua ocultação quando desembarcassem. Ele não confiava nos mashratanos. Depois de um tempo, o guarda de plantão saiu da torre de novo e deu permissão para dirigirem-se para o interior da estação.

Argon tan Lasal retornou ao planador com um rosto pálido e gemeu, exausto.

— Nos esperam dentro da estação de pesquisa — relatou ele.

Nordment partiu. Rosan quis saber o que ou quem os aguardava lá.

 

*

O caminho os conduziu por uma rampa de metal em espiral descendente, aparentemente para as profundezas do planeta.

— Isso não é incomum. Recursos hídricos só podem ocorrer em uma profundidade de alguns quilômetros — disse Argon tan Lasal, que parecia haver começado a recuperar a calma.

Rosan, com todas as rotações, ficou um pouco enjoada. Por fim, eles chegaram a uma superfície plana, um túnel com cerca de cinco metros de largura, com uma porta iluminada esperando no final. Wyll guiou lentamente o planador até lá.

— De acordo com minhas medidas, estamos a 2.327 metros abaixo da superfície — informou Lorif. — Contudo, meus sensores estão perturbados. Eu não posso fornecer nenhuma informação sobre o que está atrás da porta. No entanto, posso analisar a composição da porta. É constituída por uma liga metálica, que é chamada de ishrubat e cujas matérias-primas são obtidas em Mashritun 4.

— Obrigado, Lorif. Não precisamos saber disto — interrompeu Wyll Nordment e olhou para os outros interrogativamente. — E agora? Batemos à porta?

Naquele momento, a porta abaixou até o chão. A luz brilhante cegou Rosan no primeiro momento. Algumas figuras sombrias deram alguns passos em direção a eles. Rosan notou que não tinha ativado até então seu campo defensivo. Ela rogou que a sua visão não provocasse um choque cultural ou hormonal nos mashratanos.

A mestiça arcônida se acostumou com a luz. Ela reconheceu a primeira figura sombria. O homem com a cabeça calva e barba, óculos vistosos e ondulantes e roupa de seda branca era Ali Urban Judaa el Kerkum, o segundo filho do coronel Kerkum.

— Bem-vindos, mas vocês poderiam ter anunciado a sua visita — disse o filho de Kerkum, mostrando seu sorriso com seus dentes brancos como a neve.

— Esse não era o objetivo — Argon tan Lasal respondeu. — Eu vim em uma inspeção sem aviso prévio. Estes são os meus assistentes.

Ali Urban Judaa el Kerkum gargalhou.

— Desde quando Wyll Nordment e Rosan Orbanashol pertencem ao Galacticum e são inspetores? Por favor, não chute meu intelecto com os pés sujos.

Rosan sabia que essa era uma expressão mashratana. Kerkum levou os quatro por um amplo e largo corredor branco com iluminação amarelada. As paredes eram cor de areia.

— Bem, vocês querem espionar Mashratan. Aqui não há segredos. Eu vou mostrar o reservatório de água e depois quero que vão embora — disse Kerkum.

Usando um elevador — os mashratanos rejeitavam os dispositivos antigravitacionais —, eles foram levados a algumas centenas de metros de profundidade. Quando as portas do elevador se abriram, Rosan viu a água azul-esverdeada brilhante à sua frente. O lago subterrâneo estendia-se por toda a sua perspectiva.

Kerkum abriu os braços.

— Este lago subplanetário é uma grande descoberta para o povo mashratano. É por isso que temos mantido em segredo. — Ele deu um olhar significativo para o aconense tan Lasal. — Nós sabemos que estranhos gostariam de possuir nossos tesouros.

Argon tan Lasal tossiu.

— Desculpe — objetou Lorif.

Todos olharam para ele com curiosidade. O pos-bi balançava forte no parapeito e baixou a cabeça.

— Minha análise sugere que este lago tem apenas um metro de profundidade e a extensão é ampliada artificialmente, por meio de hologramas. — Lorif virou e voltou-se para o grupo. — Bem, eu diria que este depósito subaquático é 98,5 por cento uma ilusão.

Silêncio. As únicas palavras de Lorif ecoaram como um eco fraco através da caverna. Uma farsa. Com que propósito? Aparentemente, este lago debaixo d’água era uma camuflagem. Presumivelmente, para desviá-los.

Ali Urban Judaa el Kerkum pareceu petrificado. Para Argon tan Lasal, a situação também parecia ser embaraçosa.

— O que você está realmente escondendo aqui? — Wyll Nordment quis saber. Ele ganhou um olhar compassivo de Kerkum.

— Por favor, sigam-me até a sala de controle da estação — Kerkum disse suavemente, apontando para o elevador. Eles entraram. Durante o passeio até o topo, ninguém disse uma palavra. Esse silêncio constrangedor foi subitamente interrompido por um grito indesejado de Rosan, quando abriu as portas do elevador e viu as embocaduras de vários radiadores.

Meia dúzia de estranhos uniformizados estava diante deles. Eram homens de pele bronzeada, com o cabelo castanho ou preto, na medida em que ela pudesse ver.

Os uniformes pareciam dos tempos da antiguidade. Um peitoral dourado dominava o vermelho-acastanhado do traje. Parecia um uniforme de oficial do Império Romano.

— Quem...?

Wyll não continuou. Um dos estranhos disparou. Antes que Rosan pudesse fazer alguma coisa, sentiu que fora atingida por um raio. Então tudo ficou negro.

 

7.

Pelo deserto selvagem

 

— Acorde, sr. Nordment. Nossas chances de sobrevivência cairão drasticamente se você permanecer muito tempo sob esse sol escaldante. Precisamos encontrar abrigo.

— O que...?

Onde ele estava? Wyll Nordment sentia uma grande dor de cabeça. Ele endireitou-se — tudo doeu. Ele sabia muito bem de quem era a voz metálica muito gentil. Lorif.

— Rosan...?

— Sinto muito, mas ela não está aqui. Argon tan Lasal também desapareceu — relatou o pos-bi, ajudando Wyll a levantar-se.

Nordment olhou em volta. Deserto! Em todos os lugares havia dunas; o céu limpo e sem nuvens era dominado pelos dois sóis, vermelho e amarelo, do sistema Mashritun.

Então ele sentiu a garganta seca, o calor, ar abafado, o ar quente maçante. O que tinha acontecido? Aquelas estranhas pessoas com trajes de combate de estilo romano provavelmente tinham-no drogado, e, aparentemente, também o exposto ao deserto.

Mas onde estava Rosan? Ela provavelmente encontrava-se na mesma situação. Wyll estava preocupado com ela.

— Você pode entrar em contato com Wallace, Dove ou a IVANHOE?

— Negativo. Eles danificaram meus módulos de comunicação. No entanto, os meus sensores ainda estão funcionando. Estamos a cerca de 180 quilômetros da estação. O povoado mais próximo está localizado a 23 quilômetros ao sudeste.

23 km era uma distância viável. Porém, na prática era muito longe com este calor e areia. Lorif não fora necessariamente projetado para caminhar pela areia.

Obviamente era o que Kerkum queria — Wyll presumiu que ele estava por trás disso — e seus amigos de estilo romano, que teriam prazer com a morte agonizante de Wyll e dos outros. Graças a Lorif, Nordment tinha uma orientação. Mas e Rosan?

 

*

 

— Yella Yak, Yak! Kushi, Kushi. Yella!

— O quê?

Rosan abriu os olhos. O círculo se fechou. Uma das últimas coisas que ela tinha visto antes da perda de consciência era a embocadura de um radiador. Agora, ela olhou para trás, para o buraco negro circular ameaçador. O sol queimava sobre seu corpo. Para horror de Rosan, ela percebeu que seu belo traje vermelho estava todo rasgado.

Um mashratano em manto marrom miserável indicava para ela para se levantar.

— Levante cadela. Levante!

Afinal, ele agora falou em intercosmo. Porém, sua escolha de palavras floridas não o fez mais simpático. Rosan olhou em volta. Ela estava aparentemente no meio do deserto. A poucos metros, reconheceu alguns outros mashratanos, ao lado de um planador de transporte muito velho, onde alguns kuhuns e refrys foram amarrados.

— Olhe só para ela. Deus tenha piedade dela — gritou um dos homens e manteve o dedo apontado para Rosan.

Ela se levantou e sofreu as consequências da paralisia. “Onde estava Wyll?”

— O que... o que aconteceu? — perguntou Rosan ao mashratano barbudo.

— O que você quer? O que aconteceu, hein? Você aí deitada em pecado na areia. Foi isso que aconteceu, prostituta infiel!

— Ela tem olhos ferozes. E o cabelo do diabo. Ela é uma bruxa! — gritou outro. — Apedrejamento!

Rosan suspeitava de que fora deliberadamente deixada nesta área. Isso seria um bom fim, abatida por fanáticos, pessoas supersticiosas do deserto. Presumivelmente tinham, portanto, rasgado o seu traje. Infelizmente Rosan não tinha nada para cobrir o decote e a barriga de fora. Que não conseguiria sair com diplomacia, ela já havia presumido, mas, mesmo assim, tentaria fazê-lo de qualquer maneira.

— Eu sou uma arcônida e fui atacada. Levem-me de volta para Vhrataalis e serão bem recompensados.

Os homens ficaram em silêncio. Eles se entreolharam interrogativamente. Alguns olharam para o chão e balançaram a cabeça. Um sorriu para Rosan e mostrou os dentes desiguais.

— Ela é um animal. Nada mais. Podemos levá-la — afirmou o homem com um rifle.

— Oh, Deus, santo e grande Deus misericordioso, não! — gritou outro. — Não podemos acasalar com um demônio. Isso é pecado!

Seguiu-se uma discussão entre os homens. Rosan se perguntou se deveria correr para o planador. Mas até lá um deles já teria atirado nela.

— Nós a levaremos para o sacerdote Mahmud Benjamin del Concetti. Ele decidirá o que fazer com ela — exigiu um homem em um manto de cor ocre.

Os outros concordaram. Rosan foi levada rudemente para a zona de carregamento do planador. Nestas circunstâncias, ela teria preferido ir a pé sozinha pelo deserto.

Ela se perguntou se Wyll e os outros estariam bem.

 

8.

A partir das crônicas — LTL e Camelot

 

As boas-vindas de Cistolo Khan e sua assistente Sanna Breen foram breves e muito formais. Landry foi imediatamente enviado por Khan para fazer uma patrulha.

Claro que eu conhecia Khan. Sua assistente, eu via pela primeira vez. Ela tinha cabelos castanhos na altura dos ombros e grandes olhos verdes. Khan apresentou-a como uma professora bem-sucedida, que coletava informações sobre a Mordred. O comissário da LTL apenas mantinha uma certa cortesia com Aurec. Isso exigia a diplomacia a respeito do chefe de estado de uma superpotência estrangeira.

— Eu, porém, não entendo a razão de não nos encontrarmos na sede da Hansa, Chanceler. A Primeira Terrana ficaria feliz de encontrá-lo — Khan começou.

— Bem, o problema com a Mordred parece-me mais importante do que manter visitas diplomáticas. Vamos adiar isto até concluirmos sobre a Mordred — o saggittonense respondeu com firmeza.

Khan pigarreou e, finalmente, se sentou.

— Eu queria um ambiente mais familiar — disse ele, olhando para Wirsal Cell e eu.

— Estes são meus confidentes — Homer G. Adams esclareceu com calma e em tom amigável.

Aurec suspirou.

— Nós escolhemos este lugar porque Jaaron Jargon é um galáctico respeitado por todos. Vocês devem deixar a sua mesquinhez política. A Mordred mata humanos e galácticos, independentemente de simpatizarem com a LTL ou Camelot. Esta é uma prioridade!

Sanna Breen olhou Aurec obviamente impressionada, enquanto Cistolo Khan olhava impassível para a mesa de mármore. As negociações começaram lentamente. Homer G. Adams aliviou a atmosfera um pouco tensa conversando com Sanna Breen.

Ela contou sobre sua carreira. A terrana de 26 anos começou uma carreira de modelo devido à sua aparência, mas viu rapidamente o quanto era chata. Em vez disso, Breen estudou economia e ciências militares, durante cinco anos, na universidade de Terrânia. Fiquei imaginando o quanto provavelmente ela aprendeu lá, já que agora havia tantas disciplinas e ciências. Assim que ela terminou, em 1289 NCG, foi adicionada como professora e analista na equipe de Khan. Sua primeira tarefa foi observar a Mordred.

Aurec levantou o dedo, parecendo quase um colegial envergonhado, e perguntou: — Isso significa que a LTL já observava a Mordred bem antes dos primeiros ataques?

Breen abriu a boca, mas não disse nada. Confusa, ela olhou para Cistolo Khan.

— Claro — respondeu ele. — Mas não tínhamos informações para podermos ter evitado os ataques.

Agora foi Sanna Breen quem olhou furtivamente sobre a mesa, com uma pitada de nervosismo e agitando o chá com a colher.

— Bem, se Camelot estiver disposto a nos dar todas as posições dos escritórios, com todos os nomes dos empregados, nós ajudaremos, claro, com a devida proteção.

Adams fez que não.

— Isso é o que você gostaria. Nós já fornecemos informações para vocês, relativas ao território da LTL. Essa linha da LTL para mim ainda não é muito clara...

— Nós defendemos a paz, liberdade e democracia — disse Khan. — Paranoia não entra em questão — acrescentou friamente.

Aurec pediu para Sanna informar o que sabia sobre a Mordred, mas Khan interrompeu o intercâmbio de informações com um estrito “não”.

— Este comportamento é completamente incompreensível para mim. Estou empenhado, apesar de ser saggittonense, mais com a preservação de sua espécie do que você mesmo. Vejo isso como desonroso e vergonhoso.

 

*

 

A raiva de Aurec era compreensível. Cistolo Khan executava a política da LTL de maneira consistente e contínua. Os eventos com os tolkandenses e dscherros tinha de fato forçado Camelot e a LTL a cooperar, mas não a se tornarem amigos, o que certamente ainda estava longe de acontecer. Para o governo, a situação atual não era propícia. Ele temia a interferência de Perry Rhodan mais do que qualquer outra coisa, pois, se ocorresse de Rhodan e os outros portadores de ativador celular aparecerem novamente para o público terrano, provavelmente a população seria a favor dele. Sim, se Rhodan decidisse concorrer à eleição como Primeiro Terrano — quem teria chance contra uma lenda viva? Tudo isso podia ser mais importante do ponto de vista de Cistolo Khan e Paola Daschmagan, do que a vida de alguns agentes camelotianos. Sem contar que eles provavelmente subestimavam o perigo da Mordred. Eu decidi tentar convencer Khan da necessidade de cooperação contra a organização terrorista.

— Se Camelot for derrotado, a Liga será o próximo alvo da Mordred — argumentei fortemente contra Khan. Então eu passei a palavra para Adams.

— É Camelot que deve ser dizimado por um inimigo implacável. Perry Rhodan, Reginald Bull e Atlan são os que agora defendem suas vidas, em prol do futuro dos galácticos e, assim, do futuro da LTL, em regiões distantes do Universo. — Adams implorou ao comissário da LTL: — Khan, agora é hora de mostrar razão e responsabilidade!

O comissário da LTL levantou-se. Ele olhou para o vale, parecendo lutar com ele mesmo. Depois de um tempo, ele se virou e acenou com a cabeça a mim.

Finalmente, eu pensei, e comecei o meu relatório.

— Descobrimos ligações da Mordred com os Guardiões Galácticos, o governo de Kerkum em Mashratan e o Império de Cristal. Aparentemente, a Mordred é apoiada por patronos influentes. Até agora, temos três suspeitos. O nobre arcônida Eron da Quartermagin, o patriarca dos saltadores Horach e... — Breen vacilou e procurou contato visual com Khan. Que se calou. Ela suspirou baixinho. — E Dennis Harder.

— O senador de finanças de Terrânia? — perguntou Homer G. Adams, perplexo.

— Exato — confirmou Sanna. — Como Kerkum e a Mordred operam em segredo, estas três pessoas são necessárias para obter equipamentos e recursos financeiros.

— Que tipo de equipamentos? — perguntou Aurec.

— Materiais para espaçonaves, armas, robôs de combate. Eles têm construído uma rede de empresas de fachada. Há uma abundância de planetas independentes, onde se podem produzir armas. No entanto, não sabemos em que sistemas estão localizadas as principais bases. Nós suspeitamos que existe também um estaleiro no espaço.

A construção de grandes naves de combate não era realizada, em todo caso em estaleiros conhecidos. Um projeto tão grande, e durante muitos anos, não poderia passar despercebido. Adams explicou que já estavam bem adiantados, mas faltavam-lhes nomes e pontos de referência.

— Estou perplexo que a LTL deixe um político criminoso de alto nível sem ser incomodado — disse Adams, com raiva.

— Nós o observamos, para que nos leve à central de comando da Mordred. O mesmo se aplica a Mashratan. Lá certamente há uma base da Mordred, mas não o centro — defendeu-se Khan.

Aurec propôs informar a IVANHOE imediatamente. Wirsal Cell concordou em partir imediatamente. Ele se levantou e deixou o terraço.

— Há quanto tempo o SLT está em posse desta informação? — perguntou Adams.

— Isto é um assunto sigiloso — Khan respondeu rispidamente.

Aurec se levantou abruptamente. Assim, teve imediatamente a atenção de todos.

— Não importa. Temos três contatos da Mordred. Devemos usá-los. A Mordred vai mudar suas táticas, porque perderam o elemento surpresa. Já não vai ser tão fácil tomar de assalto os escritórios de Camelot. Então, temos que obter informações, destes três, sobre o que pretende a Mordred a seguir.

Ele se virou para Sanna Breen e sentou-se ao lado da bela terrana.

— O que pode nos dizer sobre os três? Onde eles estão? Quais são suas ligações?

Sanna Breen deu de ombros.

— Nenhuma pista quente. Porém, todos os três empreendem muitos negócios, mas nunca estão juntos no mesmo lugar. Pelo contrário, seus rastros desaparecem na maioria das vezes.

Uma tosse alta chamou a atenção tanto do saggittonense como da terrana. Wirsal Cell estava na porta.

— Não temos tempo para análise. Eu tenho um plano.

 

9.

A vespa no telhado

 

Fazia há muitos anos desde que Wirsal Cell havia visitado a sede da Hansa. Embora a Hansa já não tivesse o glamour anterior, que Cell certamente não tinha experimentado pessoalmente, mas apenas a partir de relatórios e filmes, ainda assim, a instalação, localizada no centro de Terrânia, era um impressionante complexo. Com áreas públicas, academias, bibliotecas, salas de conferências, hotéis, restaurantes, complexos administrativos dos funcionários e do serviço público, e até mesmo um pequeno espaçoporto ao lado. O círculo interno do QG da Hansa não era o real centro do governo, mas continha os sistemas de defesa, armazenamento de energia, backups de sistemas sintrônicos, bunkers, jardins hidropônicos, arquivos e tudo o que o governo da LTL permitia para a defesa da continuação dos negócios do governo. Ao longo dos séculos, o uso do complexo havia sido limitado, no entanto, com as grandes instalações subterrâneas tendo se deteriorado. A LTL não necessitava mais de vastos aparatos militares, como em épocas anteriores. Mas os andares subterrâneos talvez ainda recuperassem a importância, porque a torre do SLT não estava mais disponível.

O QG da Hansa era dividido em três áreas. A área de gestão, as instalações da Hansa e do distrito governamental.

O alvo de Wirsal Cell foi o prédio do governo para a cidade de Terrânia. Ele queria consultar o senador de finanças Dennis Harder. Foi surpreendentemente fácil obter uma curta entrevista com ele. A palavra mágica “Camelot” quase tinha sido o suficiente. Mas, certamente, Cistolo Khan também tinha uma mão nisso. Cell dirigiu o planador sobre a ainda impressionante fachada do complexo.

O edifício mais alto do QG tinha mais de 500 metros de altura. Havia plataformas de observação, com belos jardins, lagos artísticos e pequenos prados. Anteriormente, o influente e rico porta-voz da Hansa comemorava suas enormes festas ali. Mas agora o monumento da grandeza do passado da Hansa tinha um aspecto de desleixo e total abandono, testemunhando o declínio final de uma organização galáctica que uma vez já exercera liderança.

O Ministério das Finanças de Terrânia ficava no primeiro subsolo. Depois que mostrou aos guardas o crachá de visitante, Cell foi autorizado a entrar, após uma breve verificação de segurança. A administração do prefeito de Terrânia fora instalada em uma grande passagem circular. Nas laterais havia vários escritórios.

O senador de finanças Dennis Harder residia em um complexo separado, que ficava no final do corredor circunferencial. O escritório do senador de finanças estava uma bagunça. Picopads, leitores, páginas impressas e tomos inteiros de documentos estavam por toda parte. Em meio ao caos estava um pequeno homem, com cabelo curto e bigode, ambos castanhos. Ele saiu correndo de trás da mesa e apertou a mão de Cell.

— Como assim? O chefe de formação da academia espacial em Camelot — constatou Dennis Harder.

Cell sorriu timidamente.

— Oh, isso foi há muito tempo. Agora trabalho apenas como consultor para a academia espacial. Meu foco é a análise de segurança dos escritórios de Camelot.

Dennis Harder riu.

— Então você fez um mau trabalho. Bem, o que o traz aqui? Se Cistolo Khan não tivesse dado mais ou menos uma ordem moderada para falar com você, não estaria aqui. A propósito, sente-se!

Cell seguiu o convite e sentou-se em uma estreita poltrona de couro.

— O que tenho a ver com Camelot? — perguntou Dennis Harder?

— Bem, você quer destruir isto, junto com seus cúmplices da Mordred, não é?

O senador de finanças olhou para Cell como se ele fosse uma aparição mística. O pequeno terrano permaneceu imóvel atrás de sua mesa. Cell manteve contato direto com os olhos. Depois de uma eternidade, Harder baixou a cabeça.

— Quem ou o que é a Mordred?

Agora Cell riu. Não foi uma risada desdenhosa ou uma ruidosa gargalhada, que anteriormente foi considerada por Harder. Foi boa, calma e elegante.

— Você está ciente dos ataques, mas não sabe o nome da Mordred? Muito convincente.

— Essa conversa acabou — disse Harder.

— Esta conversa acaba quando eu decidir — respondeu Wirsal Cell com firmeza.

Harder ajeitou a gravata azul. Wirsal Cell sabia que o senador de finanças reagiria dessa maneira. Harder obviamente nunca tinha considerado que alguém lhe fizesse perguntas embaraçosas. Cell apreciava isso.

— Você sancionou pessoalmente negócios com uma empresa de entrega de armamento tecnológico com a cidade de Terrânia. Os componentes são aliás, entre outras coisas, a coleta de desmaterializadores e anéis de memória, fornecidos por uma subsidiária da Hansa, que atuou como intermediária para o patriarca mehandor Horach. Isso foi ao mesmo tempo em que outros componentes de uma empresa de armas arcônidas, propriedade de um nobre chamado Eron da Quartermagin...

Dennis Harder se remexeu na sua cadeira. Então ele ficou quieto e olhou para Cell.

— E? O que é incomum em tais transações? Se alguém quiser construir uma espaçonave, ele pede as suas partes. A posição negocial da cidade de Terrânia tem que permanecer competitiva. A Hansa já tem criado buracos o suficiente no orçamento.

— Bem, até agora tudo ainda é legal. No entanto, o saltador atua como um ponto de partida para outros fornecedores de armas. O SLT investigou esse assunto e registrou tudo. Harder, a partir dos componentes fornecidos reunidos, é possível construir um canhão conversor do projeto mais recente! Horach parece contornar o embargo de exportação de armas a Mashratan com os componentes fornecidos por você. Kerkum parece construir naves de guerra, com peças feitas na cidade de Terrânia. E eles o têm no cabresto, porque as leis de exportação exigem que o cliente final seja marcado.

Então Harder ficou realmente nervoso. Ele sabia quem era o chefe de negócios. A questão era apenas saber se Harder era apenas um dos políticos incompetentes e negligentes ou estava especificamente a serviço da Mordred.

Cell pediu a Harder para o acompanhar até o terraço. Relutantemente o senador de finanças concordou. O dispositivo antigravitacional levou-os para um jardim artificial em um dos telhados dos edifícios. Do alto edifício de 230 metros de altura tinha-se uma boa visão da cidade de Terrânia.

Cell observou o tráfego intenso na rua Khooloi e a vida agitada no bulevar Estrela.

— O SLT não tem nenhuma evidência contra você, mas, se cavarem fundo, vão certamente encontrar algo — disse Wirsal Cell enquanto uma brisa soprava. As folhas das árvores sussurravam ao lado deles, com os ramos rangendo baixinho.

— E isso tem alguma coisa a ver com você? — perguntou Harder.

— Hoje, Homer G. Adams e o chanceler saggittonense Aurec estiveram em Siena. Eles se reuniram com Cistolo Khan. Eu também estava na reunião. Lá, seu nome foi mencionado em conexão com Horach e Quartermagin.

Harder suspirou. O político não tinha dito nada, mas sua expressão facial disse bastante.

— Devo convencê-lo a cooperar. Nós procuramos a base e o mentor da Mordred.

— Eu não sei nada e não tenho sentimento de culpa. Se este saltador ou arcônida estão envolvidos em transações impróprias, então isso não é problema meu. Eu só estou cuidando do bem-estar da economia dos terranos — replicou Harder.

— Um belo discurso, mas pode comprová-lo? O SLT e Camelot observarão você. E se realmente trabalha para a Mordred, você se torna um risco para a segurança deles.

As palavras pareceram funcionar. Harder, evidentemente pensava muito. Wirsal Cell pôs o braço sobre o antebraço de Harder.

— No entanto, ainda há uma alternativa. Ouvi dizer que Cauthon Despair pertence a Mordred. Eu fui seu mentor. Nós compartilhamos um ódio natural por Perry Rhodan, e contra o sistema podre da LTL e a inundação de extraterrestres em mundos terranos. Eu poderia fazer você ganhar tempo. Se a Mordred mostrar gratidão, eu poderia fazer parte da organização...

Wirsal Cell deixou o resto em aberto. Harder sorriu pela primeira vez. Ele olhou ao redor, queria certificar-se de que obviamente ninguém estava observando.

— Eu não vou ser tolo a ponto de dar os nomes dos planetas onde a Mordred é ativa, apesar de geralmente saber. Mas ouvi rumores de que Despair está interessado em Sverigor.

Harder gesticulou, para afastar uma vespa, mas ela voou, zumbindo, de novo sobre ele.

— Maldição — ele jurou. — Agora vou fazer uma viagem de negócios urgente e ver como as coisas evoluem. Viaje para Sverigor. Lá você receberá instruções da Mordred.

Wirsal Cell virou-se e olhou o parque no telhado. À distância, ele viu Stewart Landry, Sanna Breen e o saggittonense Aurec. Eles foram diretamente para ele. Os três tinham ouvido no microfone escondido na roupa de Wirsal o suficiente e agora uma pista: Sverigor. Dennis Harder não pareceu entender muito bem. Ainda se preocupava com a vespa irritante.

— Dennis Harder, vou levá-lo sob custódia, por violar as restrições à exportação de equipamento militar — Landry disse, puxando, sem hesitação, o seu radiador manual.

— O quê? Por quê? Como se atreve? Você não sabe quem eu sou?

Sanna Breen e Aurec bloquearam as possíveis rotas de fuga de Harder. O senador de finanças olhou chocado para Wirsal Cell, que não teve nada mais do que um sorriso cansado para Harder.

— Você caiu na nossa armadilha. Graças a você, agora podemos pegar Despair.

— Se você nos levar imediatamente para a sede da Mordred, podemos salvar vidas, e você assegurar seu indulto — disse Sanna Breen.

Por um momento, Dennis Harder ficou mudo. Então ele pareceu reconhecer que o jogo tinha acabado.

— Tudo bem — ele disse.

Novamente, a vespa voltou. Harder tentou acertá-la com a borda da mão. Claro, ele não conseguiu. A vespa retornou, caiu sobre seu pescoço e picou. Harder gritou e se esbofeteou no pescoço, porém a vespa foi mais rápida e voou para longe. Rapidamente, ele a perdeu de vista.

— Então? Onde fica a sede da Mordred? — perguntou Sanna Breen.

Dennis Harder começou a tremer. Ele cuspiu espuma e saliva. Ele gritou estridentemente, sacudiu-se e, em seguida, desabou sem vida. Landry tentou reanimá-lo, mas já era tarde demais.

— Um choque pela picada de vespa — suspeitou Breen.

— Não — disse Wirsal Cell. — Ele foi envenenado. A Mordred nos observava.

Aurec olhou em volta. De repente, ouviu um zumbido atrás dele. Aurec puxou o radiador e disparou contra a vespa que se aproximava, queimando-a sem deixar nenhum resíduo.

— É melhor prevenir do que remediar — disse o saggittonense. — Não temos tempo. Se a Mordred está nos observando, temos que correr para Sverigor, enquanto Despair estiver lá.

 

10.

Sóis incandescentes

 

— Apenas mais 14 quilômetros, senhor!

— Só... só...

Wyll Nordment não tinha força e tinha pouco incentivo espiritual para responder para Lorif. A garganta estava seca, o sol queimava e havia apenas deserto para ver. Eles estavam perdidos. Eles precisaram de mais de oito horas para nove quilômetros. E estavam ficando mais lentos. Wyll ficava cada vez mais sem forças. Lorif certamente poderia marchar assim durante dias. Ele não precisava de água e nenhuma refrigeração.

Nordment olhou gemendo para o céu sem nuvens. Os dois sóis os queimavam incansavelmente.

A vista no chão não era melhor. Areia, tanto quanto os olhos podiam ver. Aqui e ali havia um solo mais sólido, rochoso.

— Eu localizei uma pequena coleção de plantas e formas de vida animal, senhor. Nessa direção.

Wyll seguiu o pos-bi sem dizer nada. O sensor de Lorif era sua única esperança. Cada passo era difícil. Wyll reconheceu de longe uma planta murcha com flores vermelho-escuras. Um talo preto se desenvolveu com cerca de dois metros de altura.

— Uma planta mashratana do deserto. Suas raízes são profundas. A partir disso, ela busca a água. Caso contrário, ela se alimenta de carne...

Wyll parou e manteve uma distância segura da planta.

— Certamente não teve muito o que comer ultimamente.

Wyll queria sentar-se em uma rocha para descansar um pouco.

— Eu não faria isso. Atrás de você há um ninho de cobras. Isto é como um oásis por aqui.

— Onde está a água?

Lorif ficou em silêncio. Depois de um tempo, o pos-bi respondeu: — Cerca de 20 metros de profundidade.

— Super...

Wyll olhou em volta. Ele reconheceu uma espécie de caverna entre duas pedras quadradas. O terrano não se deixou desencorajar pelas interrupções de Lorif. Se houvesse um caminho para a água, então era lá. Eles também iriam se proteger na caverna. Era um porto seguro. Wyll quase já tinha desistido totalmente. Nordment reuniu sua força restante e de repente ouviu um crack sinistro na caverna. Ele parou abruptamente.

— Volte, senhor! — Gritou o pos-bi.

Lentamente, Nordment voltou, um passo atrás do outro. Um estrondo alto fez um calafrio na espinha dele, apesar do calor. Com um poderoso ribombar rastejou para fora da caverna uma criatura gigante, semelhante a um escorpião.

Ele tinha quatro braços com pinças e estalou com uma. Aparentemente, isso foi apenas um aviso. Wyll voltou cautelosamente. Lorif parou diante do terrano. O inseto gigante, de aproximadamente dois metros, levantou a cauda com o aguilhão para o pos-bi. Depois de um som metálico Lorif caiu. O escorpião atacou com a pinça de um braço, mas Lorif agarrou os dois lados da tesoura e separou-os. Mas o escorpião tinha um segundo braço para pegá-lo. Wyll olhou em volta, pegou algumas pedras e jogou-os sobre o inseto. Ele ficou pouco impressionado e continuou sua luta contra o pos-bi.

De repente Nordment ouviu um rugido no céu. Ele olhou para cima. O space-jet já estava quase em cima dele e disparou um tiro bem colocado no meio do escorpião. Naquele momento, a criatura do deserto desabou. Lorif libertou-se do aperto. Wyll correu até ele. Embora o pos-bi estivesse com a fuselagem prejudicada, parecia bem.

— Uma criatura fascinante — comentou Lorif, sóbrio.

Nordment não tinha força para falar. Uma tosse espalhou-se através da garganta. Ele a suprimiu. O space-jet pousou. Ele ficou contente de ver o oxtornense Irwan Dove e, na escotilha, Mathew Wallace.

— Você quer ficar aqui e relaxar por um tempo e tomar banhos de sol ou está procurando uma oportunidade de voo, companheiro? — perguntou Wallace, sorrindo.

Dove entregou a Nordment uma garrafa de água. Wyll esvaziou-a em pouco tempo.

— Como?

— Você está se movendo longe da estação secreta, caso contrário, o teríamos encontrado antes. Conseguimos ver Lorif finalmente — disse Dove com uma voz grave.

— Rosan?

Wallace faz uma cara séria e abanou a cabeça.

— Nenhum sinal dela. Meu planador foi atacado na noite passada. Eu recuei e nós voltamos ao amanhecer, para encontrá-la. Os caras do Galacticum discutiam com Kerkum por qualquer autorização, porém isto demorou muito tempo.

— Argon tan Lasal?

— Ele também está desaparecido — disse Dove. O oxtornense levou Wyll Nordment e colocou cautelosamente o exausto terrano no space-jet. Então em Wyll surgiu uma insistente preocupação com Rosan. Eles tinham que encontrar sua amada esposa. Se fora deixada em algum lugar do deserto, ela não tinha muito tempo de sobra!

 

*

 

Quanto tempo ainda poderia suportar o fedor, Rosan não sabia. Ela teria preferido uma jornada solitária através do deserto. Em vez disso, estava sentada há horas na área de carga do planador de transporte encharcado com urina, fezes e feno, entre kuhuns malcheirosos. Refrys ainda tinham o pior cheiro de Mashratan, que ela sentiu com uma mistura de desejo e medo.

Ninguém tinha falado com ela. Ninguém tinha respondido às suas perguntas. Ela esperava que este sacerdote de Vhrato tivesse um pouco mais de compreensão. A mestiça arcônida não tinha ideia de onde estava em Mashratan. A lógica seria uma localização não muito longe da estação secreta.

Foi coincidência ou acidente ter se deparado com essa caravana? O que tinha acontecido com Wyll? Finalmente o transporte parou. Rosan foi brutalmente empurrada e afundou exausta na areia quente. O mashratano gritou e disparou sua arma para o ar. Aparentemente, era um sinal do retorno deles. Ou que tinham trazido da pilhagem.

O inferno de várias armas fez a torturada Rosan pressionar as mãos contra os ouvidos e a olhar de soslaio. A coisa toda a lembrou de relatórios culturais sobre os povos do deserto, os nômades da Terra, antes da conquista do espaço. Os mashratanos se pareciam com os beduínos da Terra, que se divertiam celebrando o regresso à sua aldeia com um espetáculo ensurdecedor. Eles tinham, principalmente, um variado arsenal de armas de projétil antigas e, para a consternação de Rosan, modernas armas eletromagnéticas de alta performance e até mesmo um radiador de impulsos também estavam em operação.

Rosan foi cercada, em poucos instantes, por habitantes da disforme aldeia. Crianças que procuravam rasgar os restos de sua roupa. As mulheres, é claro, cobertas pelo véu de energia yeshi-hihab, proferiam maldições estridentes.

Rosan, até onde podia, compreendia razoavelmente o dialeto mashratano, acompanhando a discussão sobre os métodos de sua execução, que variaram de apedrejamento, decapitação, combustão ou enforcamento. Alguns dos homens bateram nela com as coronhas das suas armas e empurraram-na pelas ruas. As ruas eram de terra batida e as casas, de pedra branca e cúpula simples, mas já haviam perdido sua cor clara e cinza amarela. Ali e acolá, Rosan encontrou sinais de tecnologia, mas, apesar de tudo, parecia como se tivesse sido transportada milênios de volta. Tudo parecia tão pobre e decadente, literalmente arruinado.

Os mashratanos viviam em extrema pobreza. Na Terra, ou em Gos’Tussan, não havia tais aldeias. Teria sido inconcebível deixar a infraestrutura tão deteriorada. Com os terranos isto acontecia devido ao cuidado para com os residentes da Terra, com os arcônidas também por razões de imagem. Mas Mashratan era diferente. Tudo ali era diferente do que nos modernos mundos centrais da Via Láctea.

Ali, havia carruagens ao lado de planadores enferrujados. Antigos robôs rangiam, arrastando jarros de água de barro pela área. O tempo parecia ter parado em Mashratan.

O único magnífico edifício era o templo de Vhrato. Ele era cercado por um muro alto branco com ameias verdes. Ainda assim, ninguém falou com Rosan. Os aldeões a insultaram bastante. Rosan ficou feliz quando chegaram às paredes do templo. Ele era guardado por dois mashratanos que, pelo menos, tinham roupa limpa. Um dos seus captores informou o que havia acontecido. O chefe correu até eles. Um mashratano de pele escura com cabelo verde e barba estava sem fôlego quando chegou ao portão.

Os guardas levaram Rosan para o interior, enquanto os aldeões tiveram que esperar lá fora. O pátio da instalação era bem conservado. Alguns mashratanos estavam fazendo atividades de jardinagem. O templo media talvez dez vezes dez metros de altura, com quatro torres nas laterais. O telhado era muito pontudo. Este projeto era típico de Mashratan. Uma mistura de igrejas românicas e góticas do cristianismo e mesquitas árabes.

— Você entende intercosmo? — Rosan quis saber do superintendente.

— Cale-se, o sacerdote vai falar com você e decidir o seu destino.

O interior do templo era relativamente simples. Hologramas tridimensionais decoravam teto e paredes. Eles mostravam imagens de santos de várias religiões.

Ela foi deixada aos bancos e altar, em uma sala ao lado. Ela estava esperando o sacerdote de Vhrato. O chefe apresentou-se como Mahmud Benjamin del Concetti. Concetti usava uma túnica branca e vermelha. Seu rosto grosseiro com pele escura era coberto por uma barba longa, cinza. Na cabeça, usava uma espécie de chapéu de crochê.

O superintendente forçou Rosan a ajoelhar.

— Os homens relatam que você é uma invenção do deserto. Sabe a história de Lilith? Ela uma vez foi uma filha de Deus, mas desafiou a Deus e foi banida do paraíso. A partir de então, ela viveu no deserto, e procriou demônios com Satanás. À noite, ela se infiltra nas casas e suga o sangue de crianças ou estrupa homens virtuosos.

— Eu não vejo nenhum paralelo — disse Rosan.

Ela se levantou e ficou em posição de sentido.

— Eu sou uma nobre de sangue arcônida. Eu fui sequestrada, abandonada no deserto e, em seguida, sequestrada por seus moradores. Exijo ser levada imediatamente até Vhrataalis, em nome dos arcônidas e do Império de Cristal.

Mahmud Benjamin del Concetti riu uma única vez e Rosan sentou-se sobre uma almofada no chão.

— O Império de Cristal não significa nada na minha província. A maioria dos cidadãos da aldeia nem sequer sabe que ele existe. Você não tem nada a exigir, infiel! Os moradores acham que você é uma bruxa, no melhor dos casos. A magia significa a morte.

Rosan agora sentou-se e tentou uma tática diferente.

— Nós dois sabemos que não sou uma bruxa. Eu sou rica. Em gratidão pela minha salvação eu poderia doar uma grande quantia para a igreja e a aldeia?

O sacerdote e o superintendente trocaram um olhar. Eles pareciam pensar.

— O que vale mais? O prazer de me apedrejar ou uma nova capela magnífica num curto prazo? A renovação da aldeia, em honra a Vhrato?

— Bem — o sacerdote disse lentamente. — Na verdade, estou assumindo que você não é uma bruxa. Vou orar a Deus na esperança de uma inspiração sábia através dele. Até lá, você é nossa convidada. Você estará sob minha proteção.

— Obrigado, sumo sacerdote de Vhrato. Eu gostaria de aproveitar sua infinita e generosa hospitalidade para me refrescar. Roupas novas não fariam nenhum mal.

— Que assim seja. Agora vá.

O superintendente levou Rosan para outra sala. Lá, ela encontrou uma casa de banho. Ela esperou um tempo. Finalmente, viu uma câmera. Rosan já estava esperando algo desse tipo. Ela pendurou uma toalha sobre ela e desfrutou do banho.

*

 

Suas roupas novas, na verdade, consistiam apenas de uma peça adicional, que colocou sobre seus esfarrapados trajes. Além disso, o superintendente deu a ela um cinto com yeshi-hihab.

Rosan teve permissão para olhar pela aldeia. Ela tinha uma hora fora do templo. Claro, ela tinha que ativar o yeshi-hihab. Era estritamente proibido que a mulher mashratana se mostrasse fora das quatro paredes da casa do marido ou do pai. Como os homens conheciam uma mulher, para Rosan era um mistério. No entanto, ela também já sabia que a maioria dos casamentos era arranjado pelos chefes de famílias.

Ela hesitou quando entrou pelo portão do templo. A rua diante dela levava diretamente ao mercado. Não era o centro da aldeia. Então, ela foi para lá. Ninguém notou Rosan na proteção do yeshi-hihab. O mercado ficava a cerca de cem metros, em uma praça circular. Nela havia algumas tendas e barracas improvisadas, com panos de tensão para proteção do sol. Em uma torre em ruínas à esquerda brilhava um holograma do coronel Kerkum.

Rosan olhou em volta. Ela estava à procura de qualquer coisa que poderia dar-lhe informações sobre a sua localização. Ela não sabia nem mesmo o nome daquele buraco. Mas isto seria de pouco uso, porque o seu picopad tinha sido tirado.

Havia, claro, terminais públicos de comunicação. E, mesmo assim, a censura em Mashratan era extensa. Não existia conexões privadas com a rede galáctica, conexão pelo hipercomunicador só era possível através de nós filtrados nos rádios públicos. Notícias e informações, só através do estado ou da igreja. O envio de mensagens privadas em Mashratan também era estritamente controlado. Rosan estava perdida na movimentada praça de mercado e desamparada.

Ela observava as pessoas. As crianças brincavam com pequenos refrys espalhados por toda a praça. Em cada canto, mercadores discutiam com os seus clientes sobre os preços de suas mercadorias. Eram principalmente joias, armas e aparelhos domésticos.

Um homem abatido elogiou uma invenção nova, moderna. Rosan olhou mais de perto os robôs domésticos enferrujados. Eles deviam ter cerca de uns trezentos anos.

Rosan passou e assistiu outra “mulher de energia” como ela, examinando as frutas e legumes frescos. Não havia isso na Terra e em outros mundos. Se houvesse galácticos modernos em um mundo como Mashratan, se dariam bem com tudo isso? Cada alimento era analisado a respeito de bactérias, frescura e germes por uma positrônica no supermercado. Cada um tinha um picopad com aplicativos, que testavam a condição dos alimentos e bebidas.

Um galáctico comum provavelmente ficaria sobrecarregado em Mashratan, sem sua habitual tecnologia. Afinal, em Mashratan tinham talvez uma melhor compreensão da natureza do seu planeta. Porém, eles viviam em tirania, opressão e primitivismo.

Outra mashratana com yeshi-hihab discutia com um velho vendedor de robôs.

— O que devo fazer com isso? Porém, ele facilita o trabalho. O que eu deveria fazer então? Isto é como a água corrente! Desde então eu não posso mais encontrar as outras mulheres, como nos bons velhos tempos, quando trazíamos água do poço.

Aparentemente, havia muitos mashratanos satisfeitos com as condições primitivas. A infraestrutura apenas modesta tinha sido fortemente afetada na era antes do coronel pelos neoativistas e anteriormente afetada pela época de Monos. Mas enquanto a maioria dos povos galácticos tinha aumentado novamente seu padrão de vida nos últimos 150 anos, Mashratan ficou muito atrás no nível habitual de existência da Via Láctea. Rosan sabia que havia alguns grupos isolados de neoativistas e seus oponentes, os racionalistas.

Enquanto os próprios neoativistas condenavam toda tecnologia como material de Satanás, os racionalistas eram defensores da liberdade — mas não necessariamente da democracia. Rosan recordou relatos de racionalistas como potenciais aliados contra o coronel Kerkum. Embora eles suportassem em parte os valores da LTL, imaginavam acima de tudo um Mashratan industrializado. Eles queriam permitir que os ricos pudessem estabelecer todos os tipos de negócios e reduzir a massa de moradores carentes a uma espécie de servidão e abolir a religião predominante. Assim, eles também eram um tipo diferente de extremistas.

O problema era que os mashratanos não tinham escolha. Se houvesse uma mulher que quisesse correr de biquíni, ela seria espancada ou apedrejada até a morte.

Extraterrestres não eram tolerados. Contato era proibido com outros planetas.

Não havia um poder político sensato em Mashratan. Cada grupo tinha seus próprios interesses em mente, e não se preocupavam com o bem-estar dos cidadãos. Isso soava extremamente abstrato e louco, mas o coronel Kerkum e os tradicionalistas eram os moderados neste mundo de extremos.

Rosan só queria afastar-se dali. Ela retornou ao templo. Lá, era esperada por Concetti.

— Já tomei uma decisão. Eu acredito que a vontade de Deus é que você vá para Vhrataalis e, para o número desta conta, transfira uma doação generosa para a igreja e a aldeia.

Concetti entregou-lhe um cartão. Rosan o pegou. A conta bancária estava registrada nele.

Ela assentiu com a cabeça.

— Obrigado, eu vou manter minha palavra.

— Você está confusa, minha filha?

— Bem confusa. Você é um dos poucos mashratanos cooperativos.

Concetti riu alto. Sua barba cinza emaranhada se agitou.

— Mashratan nunca poderá estar à frente das hordas heréticas da Via Láctea se não formar alianças. Eu, pessoalmente, espero ganhar o favor dos terranos e dos arcônidas.

Rosan compreendeu. Ao fundo, ela viu um superintende e dois mashratanos inspecionando um planador. Aparentemente sua viagem de retorno aconteceria em breve.

— Só mais uma coisa, minha filha. Cumprimente o cardeal da Igreja Universal da cidade de Terrânia por mim, uma vez que você logo estará na cidade grande. Ele é um velho amigo. Diga-lhe que Mashratan precisa de iluminação.

Concetti disse adeus a Rosan. A mestiça arcônida subiu logo depois no planador que iria levá-la para Vhrataalis.

 

11.

Missão em Mashratan

 

— A situação é altamente insatisfatória e precária — constatou Xavier Jeamour.

Mathew Wallace, Irwan Dove, Lorif e Wyll Nordment estavam de volta a bordo da IVANHOE. O tempo urgia para Nordment, queimando-o. Ele queria encontrar Rosan, mas até então não tinha nenhuma pista. Havia apenas uma maneira de descobrir mais sobre o paradeiro de Rosan. Atacar a estação secreta, disfarçada como um reservatório de água subterrâneo. Ou prender o filho do coronel Kerkum.

— Não podemos simplesmente realizar uma operação militar em Mashratan. Os inspetores restantes do Galacticum são contra. A IVANHOE é proibida de agir arbitrariamente em Mashratan.

— Eu não me importo. Rosan está em perigo — enfureceu-se Wyll.

— O que também está claro para mim. Ontem eu enviei uma hipermensagem para o sr. Adams da LTL. A CAROLINA DO NORTE está a caminho daqui. O comandante tem mais autoridade. Até lá, devemos nos contentar com a observação do planeta, para localizar e procurar os impulsos individuais de Rosan — deixou claro Jeamour.

Nordment suspirou, frustrado, deixando-se cair na cadeira de energia moldada. O que teria acontecido com Rosan? Ele se perguntava se ela realmente ainda estava viva. Ele não queria pensar nisso, mas efetivamente o fazia. Esta incerteza e a preocupação contraíam seu estômago.

— A família Kerkum iniciou uma busca para encontrar Rosan Orbanashol e Argon tan Lasal — disse Irwan Dove.

Wallace começou a rir.

— Super, pelo menos estão atrás. E a delegação do Galacticum não faz nada?

Jeamour abriu os braços num gesto de impotência.

— Petur Werna e Pauly Nemak participam da operação de busca. No entanto, eles mostram também que são incentivados a cumprir as leis do planeta, desde que não há nenhuma evidência de que o governo está envolvido nessa ação.

Nordment observou Jeamour, que era o comandante da IVANHOE, mas não se mostrava empenhado com esta situação. Porém o que poderiam fazer? Nordment tentou colocar-se no lugar de Jeamour. Haveria um confronto militar entre Camelot e as tropas mashratanas, que seria um presente do céu para todos os adversários da organização dos imortais. Terranos, arcônidas, blues, aconenses, todos assumiriam tendências terroristas contra Camelot.

Nordment estava certo. Ele não tinha que se meter em política. Ele queria apenas encontrar Rosan.

— Bem, senhor, até onde estou familiarizado com as leis em vigor no Galacticum e os tratados atuais, uma inspeção do Galacticum é autorizada sob demanda. Se Petur Werna apresentou um pedido oficial em Mashratan, podemos deduzir que a administração de Kerkum foi colocada parcialmente sob a supervisão do Galacticum — explicou Lorif. — Claro que Mashratan pode ver isto como um ataque e proceder militarmente contra nós.

— Você já está se coçando? — Wallace troçou.

— Eu, sr. Wallace — Jeamour deixou bem claro —, estou muito preocupado com as vidas de Rosan Orbanashol-Nordment e Argon tan Lasal. Mas ainda não quero começar uma guerra por isso.

 

*

 

As horas se passaram. Pareceu uma eternidade para Wyll. Ele teve que ficar de braços cruzados, como se nada tivesse acontecido, enquanto Rosan, provavelmente, lutava por sua vida. Era óbvio que alguma coisa estava acontecendo em Mashratan e que tinha a ver com a Mordred. Quem eram essas pessoas com estranha armadura, que se assemelhava a uma versão moderna de um centurião romano?

O intercomunicador de Wyll zumbiu. Jeamour chamou Wyll imediatamente para a central de comando. Wyll foi apressadamente. Ele era esperado pelo comandante da IVANHOE. Lorif e Irwan Dove também foram para a central de comando redonda.

No meio da sala havia um holograma bidimensional. O rosto de Argon tan Lasal apareceu. Ele estava vivo!

— Agora que Wyll está aqui, posso contar a história. Em primeiro lugar, Rosan está viva. Recebemos informações de um sacerdote que ela provavelmente está bem e foi levada para uma aldeia, depois de ser encontrada por um prestativo mashratano no deserto.

Wyll tirou uma pedra do coração. Ele perguntou quando podia ir vê-la, mas Jeamour deixou claro que ele primeiramente devia ficar calado.

— Eu também fui abandonado no deserto, mas fui encontrado por um grupo de busca de Ali Kerkum. Fiquei muito surpreso com a ação. Aparentemente pareciam terroristas da legião águia de Mashratan, a oposição racionalista, que provavelmente usava o suposto reservatório de água como base. A polícia vai cuidar deles. Assim que Rosan estiver de volta a bordo da IVANHOE, pedimos que deixem o sistema Mashritun. Isso tudo causou muita agitação nesta fase delicada. Uma colaboração entre Kerkum e a Mordred pode ser excluída a partir de agora.

Silêncio. Todos na central de comando estavam perplexos com o monólogo do aconense. E ninguém realmente parecia acreditar que Kerkum não tinha nada a ver com a Mordred.

— Obrigado. Por favor, informe as coordenadas da aldeia. Nós pegaremos Rosan Orbanashol-Nordment. Queremos evitar que ela se perca novamente — disse Jeamour.

— Não será possível, ela já está a caminho de Vhrataalis. Quando ela estiver na base de inspeção, eu o informo.

O aconense encerrou a conversa.

— Incomum — Lorif comentou sobre a situação.

Jeamour olhou interrogativamente para o pos-bi.

— Como você sabe, todas as informações sobre Mashratan estão carregadas no meu armazenamento de dados. E sobre um grupo de oposição chamado legião águia não há nada. Além disso, surge a questão de como Ali Judaa Kerkum escapou.

Jeamour coçou a careca e suspirou. Ele andava, pensativo, pela central de comando.

— Nós saberemos a resposta. Mas primeiro Rosan Orbanashol deverá ser trazida em segurança. O mashratano não vai se livrar de nós assim tão fácil.

 

*

 

Xavier Jeamour se opôs à recomendação dos inspetores do Galacticum e deixou um cruzador pronto. A IVANHOE, embora fosse um couraçado de batalha, ainda não estava totalmente equipada, pois continha apenas cinco microcorvetas da classe KASKAYA II e dois cruzadores leves da classe VESTA.

Jeamour decidiu usar um dos cruzadores VESTA. Ele queria demonstrar algum poder contra os mashratanos. Embora o cruzador VESTA não fosse realmente um gigante, sofrera uma reconfiguração em Camelot, passando a dispor da mais avançada tecnologia para se defender bem.

Enquanto Jeamour permaneceu a bordo da IVANHOE, James Fraces assumiu o comando do cruzador e sua tripulação de 80 astronautas. Também Wallace, Lorif, Irwan Dove e Wyll Nordment estavam a bordo.

O primeiro-oficial da IVANHOE nascera em 1239 NCG em Dublin, na Irlanda. O barbudo Fraces tinha imponente 1,89 metro de estatura e exalava autoridade.

Ele vivera sua juventude em uma fazenda irlandesa, com seu pai e avô. Porém, em vez de continuar o negócio da família, foi levado para as estrelas. Fraces tinha partido ainda jovem e tinha se alistado em um cargueiro. Lá, ele tinha aprendido a impor-se e obter respeito. Seu caminho levou-o eventualmente a Camelot, onde frequentou a academia espacial em 1274 NCG. Desde 1281 NCG, Fraces passou a servir como primeiro oficial na CELTIC. Xavier Jeamour ficou ciente sobre como Fraces era áspero e muito capaz e solicitou-o, em 1290 NCG, como primeiro-oficial para a IVANHOE.

Depois que a administração foi informada da abordagem, o cruzador passou o campo de bloqueio do forte espacial e pousou na área pertencente à base do Galacticum.

Eles já eram esperados por Rosan Orbanashol, acompanhada de Argon tan Lasal, Pauly Nemak e Petur Werna. Wyll desceu primeiro pela rampa de desembarque, para envolver Rosan nos seus braços.

James Fraces foi com uma postura mais compenetrada.

— O que foi? Peguem a cadela arcônida e desapareçam, seus fascistas! — gritou Pauly Nemak. — Mashratan não precisa de suas armas. Saiam daqui, seus assassinos!

Petur Werna pigarreou e tentou acalmar a mulher. Fraces parecia irritado e trocou um olhar com Irwan Dove, com um sorriso que não conseguiu esconder. O inspetor chefe corpulento pediu desculpas ao primeiro-oficial da IVANHOE. No entanto, ele também descobriu que a presença do camelotiano poderia causar complicações.

— Continuamos a acreditar que a Mordred está ativa em Mashratan. Nunca uma tal legião águia foi mencionada antes. Há algo de errado aqui — enfatizou Fraces.

— E o que você pretende fazer? Bombardear a estação no deserto? — perguntou Argon tan Lasal. Ele, também, já não parecia estar feliz com a presença do camelotiano.

Wyll se perguntou por que todos estavam tão irritados. Que Pauly Nemak tinha maus modos, ele sabia. Mas a atitude negativa do aconense o deixou desconfiado.

— Onde você exatamente estava no deserto? Quanto tempo ficou lá? E por que o pessoal de Kerkum não encontrou você e nem nós? Como aquele idiota realmente fugiu?

— Eu não estou com vontade de lhe contar tudo duas vezes — defendeu-se tan Lasal.

— Por favor, por favor. Um provérbio mashratano diz para não discutir ao ar livre, mas sob o fogo que aquece as próprias paredes — interferiu Werna, que depois marchou ostensivamente para o edifício principal.

12.

Instruções da Mordred

 

A VERDUN ainda precisava de algumas horas de voo até Sverigor. Para Cauthon Despair ainda não estava claro como ele deveria lidar com Zantra Solynger. Não seria melhor ela apenas ficar fora do seu caminho?

O almirante Kenneth Kolley informou Despair sobre uma hipermensagem segura de Rhifa Hun. Despair entrou em uma sala escura. Duas figuras distorcidas apareceram. Uma estreita, outra ampla. Então Despair, Rhifa Hun e o número quatro puderam fazer uma distinção entre eles. Uma terceira figura apareceu: o coronel Kerkum. Os quatro mais altos dirigentes da Mordred estavam reunidos.

— O que aconteceu? — Despair perguntou.

— Acontecimentos desagradáveis. O número sete está morto. Ele estava cometendo erros. A LTL e Camelot estavam em seus calcanhares — relatou Rhifa Hun.

Despair não lamentou a morte do mesquinho tubarão de dinheiro. Dennis Harder de fato estava em uma posição importante, como senador de finanças de Terrânia, mas não era indispensável para os objetivos da Mordred.

— O saggittonense Aurec está a bordo da TAKVORIAN, a caminho de Sverigor. Cistolo Khan e, presumivelmente, Homer G. Adams estão com ele. Seria uma boa oportunidade para eliminá-los — comentou Rhifa Hun.

Despair sabia o que tinha que fazer. E quase sentiu pena, porque não tinha nada contra o saggittonense Aurec ou os dois veteranos do Império Solar. Pelo contrário, ele admirava Cascal e Tolk, porque eram de uma época em que um terrano honrado era temido.

— Há também um incidente em Mashratan. Camelot está com a sua espaçonave IVANHOE em órbita. Eles descobriram a estação secreta...

Kerkum agiu como um garotinho que tinha feito algo e agora fazia sua confissão.

— Infelizmente — rosnou Rhifa Hun. — Também é lamentável que só agora eu esteja sendo informado.

— Eu temo que o número cinco não seja adequado para o assunto — disse Kerkum. — Nossos aliados estão inquietos e têm sido vistos. Temos que agir.

— Os dorgonenses foram descobertos em Mashratan? Que confusão! Claro que agora a LTL e Camelot dedicarão toda sua atenção a Mashratan. Como isso foi acontecer? Kerkum e o número cinco falharam completamente. Que idiotas!

— As coisas não estão conforme minha satisfação. Kerkum, você e o número cinco resolverão os assuntos mashratanos imediatamente. Custe o que custar. O número quatro apoiará Despair em Sverigor — disse Rhifa Hun.

— Eu não preciso de ajuda em Sverigor — disse Despair.

— Sou eu que decido isto!

Despair respirou profundamente.

— Como quiser, Rhifa Hun!

— Enviarei minhas assassinas para a caça. Como felidias, elas serão bastante capazes neste grotesco Sverigor — zombou o número quatro com voz distorcida.

— Coronel Kerkum, presumo que o problema IVANHOE será resolvido definitiva e rapidamente.

Foi menos uma pergunta do que uma declaração de Rhifa Hun. Mas o déspota de Mashratan pareceu confuso com a declaração do número um.

— A destruição de uma espaçonave camelotiana não desviará a atenção de nós. A população mashratana terá que aceitar outras medidas repressivas — lamentou Kerkum.

— Primeiro, não estou preocupado com o sofrimento dos mashratanos. Segundo, você também não. Você está preocupado apenas com o seu próprio bem-estar. A LTL não vai arriscar uma guerra por causa de uma espaçonave camelotiana. Fale com os dorgonenses. Espero resultados e mais nenhuma besteira!

O holograma de Rhifa Hun apagou. Ele foi inflexível, como sempre. Sem dizer uma palavra, rompeu as ligações com Kerkum e o número quatro. Despair ficou sozinho em seu quarto. Ele não gostou da situação. Ela ameaçava a sair do controle. O fato de a Mordred ainda manter bases no sistema Mashritun, Despair nunca entendera. Várias vezes ele havia sugerido a Rhifa Hun abandonar estas bases. Mas os dorgonenses tinham interesse no mundo, e isto complicou a situação. Supostamente, cientistas dorgonenses estavam envolvidos em escavações arqueológicas. Ninguém sabia exatamente o que procuravam em Mashratan ou se já haviam encontrado.

Despair sabia mais do que precisava saber. Como a Mordred cometera muitos erros, os dorgonenses tinham que agir rapidamente. No entanto, a tarefa de Despair, por enquanto, era outra. Ele tinha que preparar tudo para a eliminação de Aurec, Adams, Cascal e Tolk em Sverigor.

 

13.

Deserto misterioso

 

— O que significa isso? Por que uma espaçonave da LTL está em órbita de Mashratan? — bufou Pauly Nemak, sem expressão. James Fraces recostou-se, relaxado. Ele trocou um olhar rápido com Wyll Nordment.

— Nós chamamos a CAROLINA DO NORTE para ajudar. Como Camelot não é autorizada, solicitamos alguém da LTL, que tem mais autoridade.

— Uma nave de guerra da LTL? O que mais vocês fascistas querem? Bombardear Mashratan de novo? — Pauly Nemak importunava implacavelmente. Fraces queria dizer alguma coisa, mas não teve chance.

— Eu conheço exatamente vocês e sua rude resposta. A CELTIC, a FREYJA e CAROLINA DO NORTE estavam presentes quando covarde e brutalmente transformaram o distrito do palácio em um campo de destroços com suas bombas.

A mulher enfiou a mão no seu cabelo vermelho emaranhado e balançou a cabeça, cheia de desgosto. Nordment sentiu o quanto ela desprezava os terranos, afinal de contas, seu próprio povo.

Nemak era completamente pacifista. Porém, mostrava uma atitude extrema, pouco positiva e útil por si mesma. Wyll até simpatizava com ela. Ela fazia campanha contra a violência. Mas Nordment simplesmente achou o modo incorreto.

— Srta. Nemak, as circunstâncias deste atentado não foram esclarecidas. Alguns acreditam ter sido um erro sintrônico. Outros suspeitam de uma conspiração — Lorif tentou acalmar a mulher.

— Nós teríamos, ao que parece, bem menos problemas se este bombardeio nunca tivesse acontecido — disse Fraces e assim referiu-se a Cauthon Despair.

“Os espíritos que eu chamei...” — Nemak pensou com um sorriso cínico.

Petur Werna pigarreou e, em seguida, conteve um arroto. O chefe dos inspetores havia estado ocupado apenas com seu refry assado. Um pequeno robô esférico flutuou sobre as sobras da refeição. Com braços de captura, ele pegou os pratos e flutuou para longe.

— O que a CAROLINA DO NORTE quer aqui? Rosan e Argon retornaram com segurança. Por que devemos necessariamente provocar um conflito?

Werna suspirou enquanto lhe preparavam um copo de suco de muxip. Um funcionário informou que o comandante da CAROLINA DO NORTE queria falar com ele.

Werna se levantou, gemendo, e se arrastou até a instalação de comunicação. Ele apertou um botão na tela e a face amarga e exausta de Henry Portland apareceu.

— Vossa Excelência, eu gostaria de uma audiência rápida com o coronel Kerkum. Tenho instruções do comissário Cistolo Khan da LTL. A situação é grave. Nós queremos examinar a estação subterrânea no deserto e fazer algumas perguntas para Kerkum, como também ao seu segundo filho.

Novamente Petur Werna suspirou.

— Oh, não, era isso que eu temia...

 

*

 

O coronel Kerkum só estava disposto a receber Henry Portland, Xavier Jeamour e Petur Werna. O planador dos três foi escoltado por outros planadores com o emblema mashratano do distrito do palácio. Eles flutuavam em uma longa estrada, em linha reta, passando por quartéis, parques, jardins, áreas de desfile e blocos residenciais dos empregados. Depois de alguns minutos, finalmente chegaram ao grande palácio principal.

— Por favor, escolha suas palavras com cuidado — alertou Werna.

— Isso se faz sempre com os psicopatas — Portland respondeu secamente e saiu do planador. Ele ajeitou o uniforme. Portland estava tenso. Ele era um soldado, oficial, comandante de espaçonave, mas não político. Flak sempre se sentia desconfortável na presença desses destorcedores da verdade de duas caras. Ele preferia a linguagem direta e não gostava quando as pessoas falavam com papas na língua. Mas, neste caso, ele provavelmente não tinha escolha.

Um comitê de recepção os levou ao salão de audiências do déspota, onde pompa e ostentação eram a regra. No teto, hologramas brilhavam. As paredes foram pintadas de dourado, enquanto várias estátuas e imagens de Kerkum mostravam o seu narcisismo.

O coronel estava entronizado em um grande sofá. O traje caqui estava entreaberto. Uma mulher seminua esfregava uma loção no peito de Kerkum. Um rugido do Supremo deu-lhe a entender para desocupar o ambiente. Kerkum não fez nenhum movimento para fechar sua camisa. Levantou-se e bateu palmas. Três poltronas de energia moldada materializaram ao lado dos convidados.

— Eu ouvirei — disse Kerkum, cruzando os braços atrás das costas.

Jeamour e Portland trocaram um olhar sugestivo. Petur Werna foi quem abriu o diálogo e falou do sequestro e das inconsistências. Ele pediu ajuda na luta contra a Mordred.

Kerkum riu, meio que grunhindo.

— Vocês querem a ajuda de Mashratan? Uma ironia da história! Vocês lançaram bombas sobre nós, depois que meus homens fizeram o trabalho sujo para suas empresas. Durante anos vocês têm nos assediado com embargos, violado nossa honra, nosso território, nossa autossuficiência e realizado inspeções. Vocês se comportam como uma potência colonial. E então agora estão pedindo ajuda?

O coronel balançou a cabeça e riu para si mesmo. Ficou no sofá e brincou com o cabelo do peito.

Portland pigarreou.

— As relações com Mashratan só poderão normalizar se o senhor cooperar, coronel Kerkum. A autarquia não os autoriza a hospedarem organizações criminosas. Uma base da Mordred pode estar em Mashratan, e não iremos embora até que isso seja esclarecido.

Kerkum murmurou algo para si mesmo. Em seguida, apontou o dedo para Portland e sorriu.

— Você é um guerreiro. Eu também sou um. Um grande senhor da guerra. Mashratan estaria disposto a lutar. Este é o nosso planeta. Nós determinamos o que está acontecendo aqui e não a LTL, ou mesmo o Galacticum. Não somos seus subordinados.

— Isso também não é uma reivindicação — Jeamour se envolveu na conversa. — No entanto, você se tornou suspeito. A Mordred deve estar ativa aqui. O que aconteceu em 1283? Você encontrou Despair ainda vivo?

Kerkum estremeceu e não respondeu. Era como se ele fosse uma estátua de sal. Portland tossiu. Finalmente Kerkum mostrou alguma emoção, e fitou os três com espanto.

— Qual era a pergunta?

Antes que Jeamour pudesse repetir, Kerkum o interrompeu novamente.

— O que Mashratan ganhará se lhes dermos as informações?

Kerkum começou a abotoar sua camisa lentamente. Ele escolheu iniciar pelo seu umbigo e esfregou seus mamilos antes do espetáculo grotesco terminar, com o último botão da camisa sendo abotoado.

— A suspensão do embargo após doze meses. Retirada da inspeção e emissários do Galacticum. Admissão na LTL, contanto que certas reformas sejam realizadas — disse Portland. Khan já o havia instruído a respeito. Portland não gostou de cooperar com este tirano que era, obviamente, mentalmente doente, deixando propositalmente a sua população viver no primitivismo. Assim, era mais fácil para ele e seus bajuladores a controlarem.

Kerkum de repente riu.

— Camelot pensa da mesma maneira? De que me adianta a palavra da LTL? Daqui a algum tempo, Rhodan governará novamente a LTL, logo depois que ele retornar — respondeu Kerkum.

— Bem, eu não sou Perry Rhodan. Porém, se o governo mashratano nos ajudar a destruir a Mordred, vidas serão salvas. Esperamos poder entrar em um acordo com você — disse o comandante da IVANHOE.

Kerkum assentiu, mordendo o lábio inferior. Ele atravessou o corredor. Só então Portland notou que Kerkum nem estava usando sapatos. Era dessa forma que ele próprio se chamava de soldado?

Ele pegou uma espada, pendurada na parede, acenando-a ao redor. Depois colocou-a de lado e agarrou um radiador de agulhas. Era um rifle sniper moderno, com projéteis de energia moldada. Portland perguntou se Kerkum só queria demonstrar poder ou atiraria neles no momento seguinte.

— Bem...

Naquele momento, Ali Judaa Kerkum e Argon tan Lasal entraram no salão. Portland foi surpreendido com a chegada do segundo inspetor. Ambos estavam tensos.

— Pai, você nos chamou?

Kerkum assentiu graciosamente.

— Parece que a Mordred teria construído uma base no deserto. E minha ordem é para cooperar com a LTL e Camelot.

— O quê? — Argon tan Lasal proferiu. — Isso soa bastante novo. Bem, eu vou informar o Galacticum sobre isso.

Kerkum apontou a arma para o aconense.

— Você, guardião de refry sarnento, não vai a lugar algum — Kerkum virou-se para Portland e continuou: — Argon tan Lasal pertence ao círculo principal da Mordred. Ele estava nos chantageando. A Mordred destruiria completamente Mashratan. Matariam minha família e eu. Eu tive que trabalhar com eles.

Portland não vacilou. Mas pensou algo completamente diferente. O laço apertava o pescoço de Kerkum. Aparentemente, ele imaginou, melhor aliar-se com a LTL e Camelot.

— Ridículo. Se Rhifa Hun souber de sua traição, seu ditador provincial!

Argon tan Lasal deu um passo na direção de Kerkum. Sem hesitar, Kerkum disparou. A energia do raio energético perfurou o aconense até o final.

— Não! — gritou Jeamour.

Mas já era tarde demais. Argon tan Lasal caiu de costas no chão, morto. Portland sabia que Kerkum tinha usado o movimento de Lasal para eliminar um cúmplice indesejado. Indiretamente, o aconense, pelo menos, tinha feito uma confissão.

Se Rhifa Hun souber de sua traição.

Portland avaliou isto como uma confissão. Argon tan Lasal era membro da Mordred. Kerkum e seu filho também, mas eles estavam agora em uma posição importante. Tanto a LTL e Camelot precisavam deles para obter mais informação.

— Agora vão para o deserto e encontrem a águia — disse Kerkum, apontando para a saída. Seu guarda-costas entrou na sala. Isso era um sinal claro.

Petur Werna estava atordoado. Ele ficou, literalmente, em estado de choque. Jeamour teve que puxá-lo, o que foi difícil para o belga magro, no entanto seguro. Portland ajudou. Juntos, eles levaram Werna para a sala de audiências.

— E agora? — perguntou Jeamour.

— Agora, vamos atacar a base, antes que Kerkum mude de ideia.

 

14.

As asas da águia

 

Henry “Flak” Portland agora estava em seu elemento. Organizar uma operação de desembarque correspondia mais à sua profissão, do que realizar negociações diplomáticas com um autoproclamado potentado.

O transmissor irradiou ele e Jeamour para a central de comando da CAROLINA DO NORTE. Os dois cruzadores da IVANHOE e a espaçonave da LTL haviam retornado. Portland deu sinal de alerta vermelho e informou o comandante sobre as áreas de pouso das unidades.

— Nós vamos descer até cem quilômetros. Uma vanguarda deve revelar a força dos adversários. Se encontrarmos muita resistência, você se retira com a IVANHOE e a CAROLINA começa a bombardear o alvo. O objetivo, no entanto, é ter acesso aos dados. Se deixarmos tudo aos pedaços, não teremos qualquer informação — explicou Portland.

— Concordo — disse Jeamour. — No entanto, a estação deve ser bem protegida. Mas o longo caminho para a entrada principal da base é perigoso.

— Nós vamos pôr os robôs de combate e os oxtornenses na primeira fila — Portland decidiu e deu o sinal para iniciar a operação. Apressadamente, as tropas estavam se preparando em ambas as espaçonaves. Técnicos verificavam os robôs de combate e os carregavam para as naves auxiliares e cruzadores.

Portland esperava que o coronel Kerkum, no fim, não desse um sinal de alerta. Ele não confiava neste tipo. Para ele, estava claro que Kerkum queria salvar a própria pele, contudo isso não o tornava menos criminoso, o que se revelara provavelmente mudando de lado para se beneficiar nessa hora, para obter vantagem.

— Comandante? — chamou o operador de rádio, um juelziishiano. — Alguém fez uma ligação para nós. Eu...

O blue não conseguiu continuar falando, pois apareceu, a cerca de 180 centímetros, o holograma de um homem na central de comando da CAROLINA DO NORTE. Ele usava uma espécie de toga vermelha, incluindo um brilhante peitoral dourado. O cabelo preto era liso e curto. A face do homem era angular, com características faciais rígidas.

— Eu sou Seamus, delegado imperial do Império Dorgon. Pela minha misericórdia infinita eu concedo-lhes a retirada honrosa deste planeta. Caso contrário, sinto-me obrigado a demonstrar o poder do Império Dorgon.

 

*

 

Henry Portland e Xavier Jeamour ficaram perplexos com esta súbita reviravolta. Portland não conhecia nenhum Império Dorgon. De onde surgira esse cara? A julgar pela armadura, que parecia uma versão moderna de uma armadura oficial romana, provavelmente eram as mesmas pessoas que haviam paralisado Rosan Orbanashol e Wyll Nordment. Portland virou-se para Jeamour. Este se pronunciou imediatamente.

— Queremos negociar. A presença de uma civilização alienígena exploradora era desconhecida por nós.

— Claro que era. Foi nossa intenção. Achávamos o atraso dos galácticos um rumor, porém o confirmamos pelo comportamento das tribos bárbaras — disse o dorgonense. Ele parecia entediado.

— Delegado Seamus, você interfere em um conflito intragaláctico. Por isso, pedimos esclarecimentos e gostaríamos de convidar você e sua delegação para uma reunião em nossa espaçonave — respondeu Jeamour, preocupado com certa cortesia.

— Inaceitável. Nós provamos nossa generosidade, mas você não entendeu nossa advertência, dada sua mentalidade primitiva. A comunicação acabou.

O holograma do dorgonense extinguiu-se.

— Que idiota arrogante — rosnou Portland.

— Isto muda toda a situação. É muito cedo para falar de uma invasão, mas a coisa toda me deixa extremamente preocupado — Jeamour admitiu. Ele informou seu primeiro-oficial na IVANHOE.

A terra ao redor da estação secreta começou a tremer. Portland ordenou o cancelamento da operação de pouso do cruzador. Os sensores registraram enormes choques na superfície do planeta ao redor da base suspeita. O chão explodiu e formou uma longa fenda. Quase um quilômetro de vapor e fumaça subiram. Toda a área foi literalmente engolida pela terra.

Portland não acreditou em seus olhos, porque parte da terra agora arqueava para cima, em um comprimento de várias centenas de metros, para depois voltar a afundar. Algo estava saindo do chão. Portland viu asas poderosas de um metal castanho. Então ele reconheceu o corpo alongado do qual as asas cresciam. A fuselagem terminava na frente em um design em forma de cunha, o que lembrava uma cabeça. No todo, a espaçonave parecia com uma ave de rapina.

— Isso era o que Kerkum queria dizer com águia no deserto — observou Jeamour, igualmente impressionado com a estranha espaçonave. A fuselagem tinha uma largura máxima de 200 e um comprimento de 900 metros; cada asa, uma extensão de 600 metros. Então, era um tipo de nave espacial que Portland nunca tinha visto. Explosões e colunas de fogo saíram do solo. Explodiram no campo defensivo da nave-águia, que, sem dúvida, pertencia aos dorgonenses. Se até agora tivessem alguma dúvida de que tinham se chocado com pessoas vindo de um espaço desconhecido, então isso fora agora definitivamente dissipado.

A nave-águia subiu e foi em direção à órbita de Mashratan. Agora Portland e Jeamour tinham que decidir se deveriam deter a nave-águia ou simplesmente deixá-la partir.

Eles não tinham atacado. Portland não dispararia o primeiro tiro. Ele observou Jeamour e leu em seus olhos e expressão facial que ele havia pensado o mesmo.

— Fortalecer campos defensivos, manter distância da espaçonave. Não atacaremos — ordenou Portland. A nave-águia alcançou a órbita e voou entre as posições da CAROLINA DO NORTE e da IVANHOE. Depois de alguns momentos, ela simplesmente desapareceu.

— Não temos mais a localização — relatou o oficial de detecção da CAROLINA DO NORTE.

— E a base?

— Arruinada. Não há mais nada.

— Eu acho que o coronel Kerkum poderá responder a mais algumas perguntas — disse Xavier Jeamour. Portland concordou. Ele quis dar alguma ênfase à sua preocupação.

 

15.

Quem são os dorgonenses?

 

Portland decidiu dar um passo ousado. Ele liberou toda as naves auxiliares e o cruzador. Jeamour fez o mesmo na IVANHOE. As espaçonaves pairavam ameaçadoramente sobre a capital. Mas nenhum tiro foi disparado. O antiaéreo mashratano manteve o silêncio. Claro que as duas espaçonaves tinham anteriormente emitido um aviso.

Desta vez, a delegação era maior. Henry Portland foi acompanhado por Xavier Jeamour, Irwan Dove, o pos-bi Lorif, Wyll Nordment e Rosan Orbanashol, o que se mostrou como uma provocação.

Kerkum e seu filho já esperavam os convidados, bastante indesejáveis do seu ponto de vista.

Kerkum abriu os braços e olhou incrédulo para os presentes.

— O que mais vocês querem? Com o que temos que nos ocupar?

— Apenas queremos informações sobre os dorgonenses — disse Jeamour.

Kerkum parou e olhou para ele, sério.

— Tudo bem. Eu só estou fazendo isso porque um dia, quando Perry Rhodan estiver novamente no poder, na razão dele, espero um posto como Marechal Solar.

Portland tossiu. Jeamour não pôde esconder um sorriso.

— A Mordred fez contato conosco em 1283 NCG. Nós salvamos Despair e o colocamos sob os cuidados de seu líder, Rhifa Hun. Ele sempre aparece como um holograma distorcido. Os dorgonenses apareceram ao mesmo tempo. A Mordred moveu suas bases para sistemas desconhecidos. Os dorgonenses descobriram algo de valor arqueológico, há alguns meses. É por isso que ainda estavam aqui. Argon tan Lasal deveria cobrir a investigação.

Kerkum declarou, ainda, que tinha pouco contato com os dorgonenses e, portanto, pouco soube informar sobre estas pessoas, exceto que eram de outra galáxia e tinham tecnologia superior. A Mordred havia realmente recrutados alguns homens de Mashratan, mas Kerkum, claro, nunca foi envolvido em qualquer operação. Ao todo, ele não deixou nenhuma dúvida de que era simplesmente a vítima.

— O que os dorgonenses encontraram? — perguntou Portland.

Kerkum deu de ombros. Então seu filho Ali Judaa interferiu, pois aparentemente sabia mais. O careca com dentes brancos reluzentes sorriu para terranos e camelotianos.

— Aparentemente artefatos de uma cultura há muito esquecido. Eles se mantiveram discretos, por isso sabemos muito pouco. Se retirar as espaçonaves imediatamente, então, eu lhe dou todas as informações que temos.

O coronel deu um rosnado afirmativo. Portland agarrou o intercomunicador e ordenou a retirada das duas espaçonaves. Apenas o cruzador deveria permanecer sobre Vhrataalis, para levá-los.

Ali Judaa Kerkum tirou um dispositivo de armazenamento de dados de seu manto e entregou a Jeamour.

— É apenas um arquivo com duas inscrições holográficas. Uma delas está em dorgonense, a outra está escrita em uma língua desconhecida até para nós.

— Então, você já domina a língua dorgonense? — disse Portland.

— Não, mas os símbolos são mais ou menos conhecidos por nós, porque já vimos isso em monitores dos dorgonenses.

Isso soou razoável. No entanto, Portland teve a sensação de que Kerkum não lhe havia dito tudo. Mas ele manteve a sua palavra e voltou com os outros para a IVANHOE e a CAROLINA DO NORTE. Ambas as espaçonaves se dirigiram para Sverigor.

 

Epílogo

 

Sverigor estava diante de Cauthon Despair. Ele estava perto o bastante para tocar. Pelo menos na sua perspectiva.

As notícias das últimas horas eram desastrosas. O coronel Kerkum havia informado que o número cinco estava morto. Os dorgonenses tinham deixado Mashratan para um destino desconhecido. Presumivelmente, se dirigiam para o sistema Dejabay ou Dermos. Ninguém sabia o que exatamente os vaidosos dorgonenses planejavam. Nem o delegado imperial Seamus, nem o seu almirante Petronus, e certamente não o sobrinho-neto imperial Nersonos, que dava a impressão de que cooperaria seriamente com a Mordred. Presumivelmente, o contato com a organização fora apenas um meio para um fim.

Número cinco e número sete estavam mortos. A aliança com Kerkum fora arranhada. O coronel conduziu um jogo duplo com a Mordred? Rhifa Hun tinha mencionado que o número seis e número nove tinham sido desmascarados.

Cada vez mais a Mordred dependia de uma operação bem-sucedida em Sverigor. A operação contra o chanceler saggittonense, Homer G. Adams, Cistolo Khan, Joak Cascal e Sandal Tolk precisava ser bem-sucedida.

A morte deles seria uma vitória para a Mordred. Os saggittonenses presumivelmente ameaçariam uma guerra contra a Via Láctea ou se retirariam para sempre do Grupo Local. A Terra ficaria sem liderança se Adams estivesse acabado, já que a Primeira Terrana era uma incompetente e perderia o seu melhor homem, Cistolo Khan.

Mas era dessa maneira que Despair realmente queria disputar? Naturalmente, ele queria se vingar e ser alguém respeitado e temido na Via Láctea. Ele queria mudar a sociedade, mas, para isso, teria que combater fogo com fogo.

Mas figuras como Rhifa Hun e coronel Kerkum eram realmente os líderes certos? Despair desprezava profundamente Kerkum, o insano. Além de seu amor pelo Império Solar, ele não compartilhava nada mais com o déspota de Mashratan.

E Rhifa Hun? O líder da Mordred tinha sido, ao longo de sete anos, o mentor de Despair. Mas ele cometeu alguns erros e se comparava inequivocamente com Cauthon por ser pavio curto. Despair havia pedido várias vezes por um ataque militar. Ele tinha sido estritamente contra alvos civis, embora muitos civis tivessem sido culpados de inúmeros crimes. E foi exatamente nisso que eles fecharam os olhos.

Despair não sabia a verdadeira identidade de Rhifa Hun. Ninguém sabia. Mas ele fora capaz de criar uma organização paramilitar para, com ela, alcançar o sucesso. Mas Rhifa Hun também era capaz de construir um império forte e justo de governar? Poderia ele segui-lo incondicionalmente?

Os dorgonenses eram o componente desconhecido neste jogo. Cauthon tinha feito contato com eles. Mas qual era seu objetivo? O império estelar pretendia dominar a Via Láctea?

Despair respirou fundo e centrou-se na tarefa em mãos. As dúvidas agora eram inadequadas. Os camelotianos e os terranos deveriam ser colocados fora de ação. Isso significava que a instabilidade e o caos na Via Láctea permitiriam uma ação rápida da Mordred. Cauthon Despair olhou para o mundo azul-verde, Sverigor. Ele tinha certeza de que a história galáctica seria escrita ali em poucas horas.

 

FIM

 

No próximo episódio de Nils Hirseland são descritos os eventos em Sverigor. A Mordred será capaz de matar Aurec e os outros, ou a organização terrorista poderá sofrer mais um duro golpe? Mais sobre isto no Volume 14: O TERROR DA MORDRED

 

COMENTÁRIO

 

Os primeiros conhecimentos sobre a estrutura da Mordred só foram possíveis de se obter com a cooperação entre Camelot e a LTL.

Na Terra, ao descobrir que o político influente Dennis Harder estava a serviço da organização terrorista, o poder de compra da organização ficou comprometido.

Em Mashratan, a tripulação da IVANHOE, com o apoio da LTL, consegue descobrir a ligação da Mordred com o regime ditador do mashratano coronel Kerkum e neutralizar um dos líderes da Mordred.

Simultaneamente “Flagg” Portland e Xavier Jeamour se encontram com um representante, que se descreve como um delegado do Império Dorgon, um povo até então desconhecido, ainda sem nenhum contato com a Via Láctea. Os objetivos e as possibilidades dos dorgonenses permanecem obscuros.

Neste contexto, surge a pergunta do que precisamente os dorgonenses procuram em Mashratan, um planeta numa das áreas mais afastadas da Via Láctea. O que torna este planeta tão interessante para eles, a ponto de apoiarem um déspota insano como Kerkum?

De alguma forma eu tenho um palpite de que a resolução deste enigma será uma grande surpresa para o povo da Via Láctea.

Jürgen Freier

 

GLOSSÁRIO

 

IVANHOE

A IVANHOE por Raimund Peter

A IVANHOE é uma nave-irmã da TAKVORIAN, um desenvolvimento completamente novo de Camelot. A ideia básica dos projetistas foi a criação um novo tipo de nave, bem maior em comparação com as naves de guerra anteriores, para atender as intenções de Camelot de expandir as suas opções tácticas na Via Láctea.

O cenário de uso previa a defesa de importantes bases estratégicas e operações de ataque contra comboios inimigos com estas naves recém-desenvolvidas. Além disso, este tipo de nave era o oposto em relação a outras classes, que apresentavam mais flexibilidade para outras tarefas.

Especificações básicas

– 1.000 m de diâmetro (com 1.160 m na protuberância anelar), forma esférica, e segmentada em módulos anelares, com encaixe equatorial, sem hangares RoRo1, mas com módulo central que pode ser ejetado para fora como uma nave de resgate.

– Tripulação: 800 pessoas, entre oficiais e equipes; podendo também receber equipes adicionais, dependendo da configuração de uso e, se necessário, naves auxiliares e unidades de desembarque.

– Configuração padrão para naves auxiliares: 2 cruzadores leves da classe de 100 m, 10 corvetas e 20 space-jets. Existem também outros módulos, dependendo da configuração.

 

Dorgonenses

Os dorgonenses são uma civilização de humanoides inteligentes de uma galáxia desconhecida. Sua aparência é humana. Não se sabe muito sobre eles. Em 1283 NCG, surgem pela primeira vez no cenário galáctico. O filho do caos Cauthon Despair se diz aliado deles. Eles apoiam a organização separatista Mordred.

Em Mashratan, os dorgonenses realizaram escavações arqueológicas com propósito desconhecido. Em outubro de 1290 NCG ocorreu o primeiro confronto com camelotianos e terranos. Uma base secreta dos dorgonenses foi descoberta em Mashratan, mas os dorgonenses destroem a estação e batem em retirada com sua nave-águia.

 

Nave-águia

Uma nave-águia dos dorgonenses por Stefan Lechner

As espaçonaves dos dorgonenses são chamadas de nave-águia pelos terranos e mashratanos. Sua forma se assemelha à da ave de rapina. O casco da nave é cilíndrico e tem 900 metros de comprimento. Aparentemente, na cabeça do corpo há uma cabine em forma de cunha. A largura, provavelmente, é de cerca de 150 metros. Duas grandes asas são ligadas aos lados do corpo principal. Elas têm uma extensão total de 1.200 metros. A espaçonave é, obviamente, feita de um metal castanho. Sobre a tecnologia dessas naves espaciais nada se conhece.

 

Argon tan Lasal

O aconense Argon tan Lasal é fruto de uma poderosa família aconense da alta nobreza. Sua mãe é política, seu pai um homem de negócios bem-sucedido na produção de equipamentos para bombeamento de água. Argon tan Lasal, barba cheia e forte estatura, pertencia à liderança da Mordred. Ele tinha a alcunha “número cinco”. Oficialmente, ele trabalhou em Mashratan como inspetor do Galacticum — presumivelmente para manter em segredo as maquinações da Mordred.

Em outubro de 1290 NCG, Argon tan Lasal foi desmascarado após investigações de Camelot em Mashratan. Primeiro, ele agiu de maneira amigável para com a tripulação da IVANHOE e com Wyll Nordment e Rosan Orbanashol-Nordment. Mas ele os atraiu para uma armadilha. Ironicamente, o coronel Kerkum revelou aos camelotianos a verdadeira identidade de Argon tan Lasal e imediatamente atirou nele.

 

Dennis Harder

O magro terrano com bigode de morsa era senador de finanças da cidade de Terrânia em 1290 NCG. Apesar de ser um político influente, não se contentou com o caminho de sua administração. Anos antes, ele ingressou na organização terrorista Mordred e disponibilizou fundos para ela. Junto com o patriarca saltador Horach e o nobre arcônida Eron da Quartermagin, ele construiu uma rede financeira e comercial que fornecia recursos para a Mordred. Porém, o senador de finanças era observado pelo SLT.

Em outubro de 1290 NCG, Harder foi persuadido pelo camelotiano Wirsal Cell a se tornar agente duplo, mas foi picado por um inseto mecânico e morto. Era provavelmente um pequeno robô da Mordred.

1        Nota do revisor: Os hangares roll-on / roll-off (rolante para dentro e para fora), abreviados como hangares RoRo, são grandes hangares, geralmente localizados na área equatorial de uma nave espacial e abertos dos dois lados. São usados para uma ampla gama de finalidades, tais como porão de carga, hangar, estação transmissora e pátio de reparo para pequenas naves. Existem vários módulos e contêineres, com sistemas de armas, maquinário, propulsores, equipamentos especiais e compartimentos de passageiros, que podem encher o hangar completa ou parcialmente e ancorar nele.